Conto: Chorando Jabuticabas

Seu Valente tem uma jabuticabeira e ai de quem chegar perto. Um conto sobre o apego ao passado, ao material e à repressão de sentimentos indesejados. Contém jabuticabas e Anum.

  A brisa fria passou por entre as pilastras da varanda. Era começo de julho, mas o ápice do inverno não repelira o morador da casa de permanecer ali para assistir à manhã virar meio-dia. Sua cadeira balançava ritmicamente enquanto seu proprietário lustrava sem pressa sua espingarda velha. Ali assobiava com o canto da bem-te-vi e do sabiá.
Fazia oito anos que um pé de jabuticabas fora plantado por Dona Ana, a pacata mãe do herdeiro do casebre,  pouco antes de sua morte. A partir daí, o homem viu a arvorezinha crescer a cada visita ao sítio conforme o tempo tentou remendar as saudades da sua mãezinha. Na varanda fria, ele muito se agradava de finalmente contemplar o tronco da árvore lotado de pontinhos roxos e redondinhos. Frutos oriundos das mãos de sua mãe. Às vezes, uma lágrima lhe escapava pelo nariz em forma de coriza. Afinal, Seu Valente nunca chorava! Nunca! Porque, primeiro, “não adiantava de nada” e “chorar era coisa de frouxo”. Seu Valente sempre fez jus ao nome que os pais lhe deram.
 A cada dez minutos, levantava a cabeça, apertava os olhos e mirava com a espingarda descarregada para a modesta jabuticabeira  a oito metros de distância. Fazia um som de tiro com a boca. Depois, caía na risada sozinho e dizia: “Dessa vez, eu pego estes molecotes de uma figa no susto, quero ver entrar aqui para pegar minhas frutas!”. Em seguida, o coroa rangia os dentes ao lembrar que, ao visitar o sítio da família no ano anterior, não lhe sobrou uma fruta sequer do primeiro ano de colheita.
Desta vez, contudo, Seu Valente estava determinado a provar cada fruto de sua longa espera. Felizmente, a vida lhe deu a oportunidade perfeita de fazê-lo com a chegada de sua aposentadoria como guarda municipal. Vinha bem a calhar sua mudança definitiva para o casebre no interior paulistano. Lá poderia ficar de olho em seus pertences preciosos: suas jabuticabas.
A vida negara muitos luxos ao guarda aposentado. Criou os três filhos trabalhando muito tempo em pé sob o sol para ganhar um salário mirrado. Era um serviço tedioso, interrompido por um infrator vez ou outra. Contudo, estava decidido que desfrutaria ao menos do luxo de comer direto da fonte todas as jabuticabas a que tinha direito e quando quisesse. Para isso, montou guarda na varanda para que o episódio passado não se repetisse.
 Seu Valente não cansava de seu posto na varanda, onde estava há uma semana. Estava acostumado com a função de guarda atento e a postos. A arma, que antes era apenas um cassetete, agora era uma espingarda “de respeito”. Era de uma devoção e dedicação sua sentinela que nem mesmo o ouro do Banco Central seria tão bem guardado.
Há uma semana sua esposa reclamava do tempo em que o homem passava na “friagem” da varanda. Falava sempre que, por ser teimoso, cairia logo doente. A coriza sem fim era a prova cabal disso. Seu Valente replicava que, para trabalhar como guarda, não tinha essa de friagem.
— Vê se a patroa reclamava quando eu tinha que sair de casa às cinco e meia mesmo com a garoa de São Paulo. — murmurava, apontando de novo para a árvore, fazendo o barulho de tiro e rindo.
— Mas para de reclamar e entra, homem, que o picadinho pronto.  — falou a mulher  e continuou consigo mesma. — Depois de aposentado, virou resmungão, ora essa. Antes era calado que “dava nervoso”.
            O homem levantou devagar, cheio de dor. Deixou a espingarda sem bala encostada na cadeira e seguiu para a cozinha, onde lhe aguardava um prato de arroz, picadinho, ovo estalado e farofa de banana. Sentou-se estrategicamente na cadeira com vista para a jabuticabeira. De práxis, a vida lhe ensinou a nunca baixar a retaguarda: nem na hora do almoço. Daí, precipitou a cabeça e passou a agradecer pelo alimento por uns vinte segundos como sua mãezinha tão bem ensinara.
            Ao abrir os olhos, moveu-se a folhagem da jabuticabeira. Ignorou. Então, deu a primeira garfada cheia na comida. De certo, era só o vento. Com a boca cheia, apertou a vista cansada em direção ao objeto de seu zelo. Lá alguns poucos pontos pretos não-identificados se buliam pelos galhos. Confuso, Seu Valente puxou a manga da blusa de sua mulher ao seu lado e apontou para a jovem árvore.
            — Uns borrões pretos ‘tão andando na minha árvore ou é minha vista embaralhando? — indagou, apertando ainda mais os olhos.
            — Volta a comer, Valente! É só um bando de anum-preto se esbaldando com as jabuticabas que Dona Ana nos deixou. Que bonitinhos! — riu a esposa ironicamente, garfando um pedaço de carne.
Ao ouvir as palavras “anum-preto”, “esbaldando” e ‘jabuticabas”, as narinas de Seu Valente se abriram, deixando um ar aquecido escapar de seu caldeirão interno. As rugas de sua testa sobressaltaram e as sobrancelhas fartas juntaram-se. Roçou os dentes. Assim, com primeiros sinais de indignação, o guarda socou a superfície da mesa, fazendo os pratos pularem. Praguejou as aves ladras.  Na verdade,  os “molecotes” da rua eram os invasores alados.
Devolveu  o garfo ao picadinho. Arrastou a cadeira bruscamente e correu para a varanda. Ali percebeu melhor o objeto de sua raiva: os pobres anuns ilegalmente se alimentando do que a natureza lhes dispôs. Saltavam alegres de ramo em ramo na jovem jabuticabeira. Abanavam sem pudor seus rabos compridos como leques. Para Seu Valente, não havia diferença daqueles seres para infratores como os bêbados mijões da cidade, os depredadores de telefone público e os pichadores juvenis.
Para piorar, o bando de anum piava brevemente, de forma aguda e irritante. Fossem bem-te-vi ou sabiás, Seu Valente permitiria o banquete por dois minutos, visto que pagariam o almoço com seu canto nobre depois.  Talvez o erro dos penetras não fosse desconhecer a escritura do terreno, onde delegava a Valente de Silveira Silva a propriedade do terreno e tudo que nele havia. O problema era que os pássaros eram fora-da-lei sem menor classe ou distinção. A ralé dos pássaros, tais quais pombos e pardais.
Bufando, o homem se virou e agarrou a espingarda velha cuidadosamente lustrada, mirou certeiro e apertou o gatilho em direção aos pássaros. Houve apenas um clique. Em sua raiva, Seu Valente ignorou  que a arma era só enfeite para espantar os supostos invasores de duas pernas. Grunhiu e bateu o pé no chão.
Sua esposa de longe gritava para ele "largar de ser besta e deixar os bicho comer”. Consequentemente, o homem ficou a ponto de explodir ante o desprezo da mulher pela sua indignação. Então, Seu Valente correu os oito metros de distância como um guepardo e gritou espantando todos, menos um anum-preto mais corajoso. Na sua fúria, deu com a espingarda no local onde o bicho comia e, assim, derrubou um galho inteiro cheio de jabuticabas no chão. Entretanto, o anum apenas se mudou para o cume da árvore, como se para rir-se da ironia, e continuou sua refeição.
Ante o galho ferido por seu maior devoto, Seu Valente se ajoelhou. Com tristeza, viu suas frutinhas roxas e negras espalhadas no chão e outras fieis ao galho. Ali ajoelhado, Valente suspirou e catou uma a uma, as do chão e aos do galho, juntando-as em seu boné bonito.
Sentou ao  pé da árvore no chão e fitou o pássaro que piava sorrindo. Depois, contemplou as jabuticabas em sua mão. Daí, seu olhar se perdeu no horizonte e, então, passou a chupar cada jabuticaba uma a uma.  Mãezinha amaria estas frutinhas, nem pôde provar. Mãezinha era tão boa que, mesmo após sua morte, deu um jeitinho de afagar sua cria. A cada semente de jabuticaba cuspida, uma lágrima finalmente lhe saía pelo olho,  as quais foram reprimidas por oito anos porque não tinha necessidade alguma. E ficou ali “chorando jabuticabas”, já que era muito valente para “chorar pitangas”.
Após suas trinta gotas de choro contadas, Seu Valente se levantou leve como um passarinho e saudou a ave acima dele.
— Tu é valente, rapaz. Merece comer isso tudo sozinho. Não é frouxo que nem teus manos. Só me perdoa que eu tenho que pegar algumas frutas para me desculpar com uns camaradas.
O anum piou, como se respondesse, e voou para junto dos outros no fio do poste de luz. A seguir, o sentinela aposentado passou a colher os demais frutos do tronco, assobiando o canto do bem-te-vi.
— Valente, o picadinho vai esfriar e eu não vou esquentar de novo! Que-qui-cê-tá fazendo aí colhendo jabuticaba? Deixa os bicho comerem que você não vai aguentar comer isso tudo mesmo — a mulher do guarda berrou.
— Para de falar, mulher, e me traz uma tigela grande preu colher metade disso aqui. Senão os pássaros comem as jabuticabas todas, e não dá para levar pros menino da nossa rua.
            A mulher coçou a cabeça e não discutiu. Entrou na casa para buscar a tigela. Já estava na hora de Seu Valente abaixar a guarda e viver.

contos contemporâneos  de escritoras brasileiras 



Inspirei-me na cena de um bando de anu comendo jabuticabas (ver filmagem )


chamada para pinterest para leitura de conto. contém imagem de uma jabuticabeira carregada e um anum preto




Comentários

  1. Que primoroso, Gi! Narrativa gostosa de se ler, cheia de surpresas e esteticamente elaborada. Parabéns!

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  2. Parabéns fiquei deslumbrada com tamanha inspiração...

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