Conto: Céu da Boca
Contos de escritores contemporâneos
O cirurgião-dentista do cento e dois olhou enlutado para as paredes
semiacabadas do consultório. Rabiscou um pedaço de papel enquanto pensava em
uma solução para seu problema. Estava sem atender nenhum paciente fazia um mês
por conta da insalubridade da sala. As paredes ainda gritavam por pintura, mesmo
após dois meses de obras consertando infiltrações. Isso preocupava o Dr. Emiliano Sistino, visto que os gastos já haviam passado do orçamento previsto ao
mesmo tempo que nenhum dinheiro entrava. Para complicar, todas as referências
de pintores que havia recebido de seus colegas ou eram de profissionais caros
ou tão baratos que o médico duvidou da qualidade do serviço.
Um latão de tinta
branca, um rolo de pintura e um pincel aguardavam no canto para serem usados.
Não parecia tão difícil pintar de branco o espaço de vinte metros quadrados. No
entanto, Dr. Sistino torceu a boca ao considerar fazer ele mesmo o serviço. O
que pensariam os outros dentistas do enorme edifício, se o visitassem e o vissem
com alguma brancura no corpo que não fosse seu distinto jaleco? Logo ele, o
cirurgião dentista mais antigo naquele prédio de trinta anos. Os dentistas mais
novos desfilavam com a virtude da beleza e da juventude, enquanto lhe havia sobrado
somente o peso de sua experiência e respeito.
— Ó Deus do céu, onde
vou arranjar um pintor decente que não me arranque os glóbulos oculares? Só um
milagre! O Senhor não quer me emprestar Michelangelo, não? — exclamou enquanto
se esticava na confortável cadeira de paciente e contemplava o teto sem acabamento.
A campainha tocou.
O dentista estranhou, pois fazia tempo que não ouvia aquele som. De cara, descartou a possibilidade de se tratar de algum paciente por ter colocado uma placa de “fechado para reforma” bem visível . Seria algum colega querendo dizer "oi"? Talvez fosse o vendedor de lanche, que sempre passava oferecendo comida de porta em porta aos profissionais ocupados e esfomeados. Dessa vez, o Dr. Sistino estava pronto para negar coxinha ou empada, pois já estava decidido a fazer dieta para perder a barriguinha que a “idade” lhe trouxe. Seja quem fosse, Emiliano não estava muito disposto a atender a porta.
Levantou-se qual uma
múmia após cinco mil anos de adormecida e, depois de alguns passos desprovidos de
ânimo, abriu a porta. Ninguém esperando. Apesar de aliviado, ainda insistiu em
verificar perto da escada se alguém descia desistente por causa da placa.
Ninguém. É. Pode ter tocado por engano e ter entrado no consultório ao lado.
Ao olhar pela
persiana aberta da sala da jovem dentista vizinha, contorceu-se com a sala de
espera cheia. Para começar, uma paciente antiga dele lia uma revista nova enquanto os outros assistiam À TV a cabo. Não só a fedelha treinou a
recepcionista para captar todos os clientes antigos de Dr. Sistino como também
se atrevia a assinar entretenimento de qualidade para fidelizá-los. Fechou a
cara. Emiliano estava certo de que suas revistas da época da morte da Lady Di
ainda serviam tão bem quanto aquelas revistas de moda e vida saudável. De
certo, seu serviço de saúde bucal era imensamente melhor. Seus pacientes se
perceberiam logo que todos aqueles pequenos mimos eram parte da casa de doces da
bruxa de João e Maria.
Após seu destilar de indignação, virou-se para voltar
a sua saleta. Curiosamente, um cartão se encontrava no chão assim que
escancarou a porta. Contudo, o dentista não havia visto aquilo ali antes. A pessoa
que passou aquele papel por debaixo da porta poderia ser a mesma pessoa que
tocara a campainha, apenas para chamar atenção ao cartão. Enfim, com bastante
dificuldade, ajoelhou-se para apanhá-lo.
Era um cartão branco e com fonte manuscrita dourada.
Aparentava um convite individual de casamento ou algo importante, mas era
apenas um cartão oferecendo serviços.
Simoni - Serviços de Pintura
1475 –1564
Seu espaço tão divinamente
pintado
quanto a capela sistina
ou seu dinheiro de volta
O anúncio lhe pareceu
engraçado e, mais ainda, o cartão aparecer naquela hora. Era muita coincidência:
algum zelador deve ter espalhado por aí que o dentista do cento e dois
precisava de um pintor. Emiliano olhou desconfiado para a promessa do cartão,
mas resolveu ligar para o número divulgado já que ali prometia o dinheiro de
volta em caso de serviço ruim.
— Alô, é dos Serviços
de Pintura Simoní?
— Simôni, Simôni.— corrigiu a voz.
— Desculpa, senhor “Simôni”. A a ligação está chiando
muito. Quanto custa sua diária? Preciso de uma pintura básica no meu
consultório.
— Duotchento
tuto.
— Que ligação horrível! Duzentos por tudo? Pode
começar amanhã cedo, no sábado? A minha recepcionista de confiança abre para
você e depois venho para pagá-lo assim que terminar. — respondeu, animado com a
possibilidade de pagar pelo serviço todo dentro do orçamento.
— Certamente! Pronto!.— respondeu a voz firme.
— Obrigado. Até!
O respeitado cirurgião dentista desligou satisfeito e
foi-se para casa descansar o sono do justo. Como se pode imaginar, o doutor
acordou de bom humor e otimista por saber que, em breve, pararia de ter gastos
com obra e veria o dinheiro voltar a a entrar. Por conseguinte, propôs-se a
relaxar e a passar um tempo melhor com a família. Os garotos e a mulher, ao perceberem o sorriso animado do dentista, logo sugeriram um passeio no shopping. Emiliano, nada bobo e já pensando no dinheiro que gastaria, falou que preferia uma tarde caminhando à beira-mar com
todos, como sempre.
E assim se sucedeu: a família Sistino caminhou mais
uma vez à beira-mar, dando-se ao luxo de beber água de coco. Olha só, que regalo
da vida: Dr. Emiliano todo prosa desfrutando do pôr-do-sol gratuito, ao lado de
seus pupilos loucos para consumir. Ele não deixaria nada tirá-lo daquele
momento de paz.
O celular toca.
Era a recepcionista com uma voz meio confusa.
— Doutor Sistino, tudo bem? É. Onde você arrumou este
pintor?
— Estou bem. Chamei por um cartão de visita, por quê?
Ele é ruim? Não pintou de branco direitinho?
— Não, não. Ele
pintou tudo de branco direitinho. Porém, agora, está pintando bem até demais.
Falei para o velho que o senhor não queria tanto, mas ele não me ouviu. Disse
que o serviço combinado era aquele. Continuou e pediu para eu deixá-lo
trabalhar. Eu não sei o que o senhor combinou! Como procedo? — disse a
secretária, apreensiva.
— Você não disse que ele está pintando bem? Então,
deixa o profissional terminar o que está fazendo. Deve querer fazer um bom
acabamento. Segunda, eu passo para conferir e pago a ele pessoalmente. Estou
passeando com os meninos agora. Não quero esquentar com isso.
A recepcionista não replicou e apenas desejou um bom
passeio, o que Dr. Sistino fez questão de garantir que acontecesse.
Após um fim de semana despreocupado, o dentista foi
avisado na segunda à tarde que poderia conferir o serviço de pintura de seu
consultório. Dirigiu animado. Colocou seu CD de MPB no carro. Comprou o amendoim
oferecido no pedágio. Deu bom-dia para o porteiro. Deu um sorriso no elevador
para aos desconhecidos. Acenou para sua jovem colega de profissão vizinha, que
saía do consultório colocando uma plaquinha de “saída para almoço” na porta..
— Ê, canseira, né, Dra. Sílvia? Daqui a pouco sou eu
que nem você saindo para almoçar tarde. O consultório terminou de pintar hoje.
— o doutor tentou ser simpático ao mesmo tempo que avisando que ele voltou para
desfazer o esquema da dentista de roubar o máximo de seus pacientes enquanto
pudesse.
— Ah, que show!
Posso ver como ficou? Se eu gostar, vou chamar o pintor lá para casa. — disse a
profissional realmente interessada.
O dentista concordou, orgulhoso, pensando que
mostraria quem mandava no pedaço. Pediu só para não reparar a bagunça. Não deu
tempo de arrumar, etc. e tal. Girou a chave enquanto tocava a campainha para
alertar sua chegada à recepcionista e ao pintor. Ao entrar na
recepção, ele passou a perguntar à dentista como estava paciente dele. Etc. e tal.
Ao finalmente escancarar a porta da sala de
atendimento, ambos escancararam a boca contemplando o serviço pronto. A
recepcionista olhou para seu patrão com uma feição de “eu quis avisar”. Daí, o
pintor virou-se de repente. Um senhor de barbas longas com rosto sério, mas
com vestes pitorescas e sujas de tinta.
— Jesus!!! Meu Deus!! — os dois dentistas deixaram
escapar juntos.
— Non è Gesù. È Adam
e Dio. Perfetto!! — replicou o pintor
com orgulho.
— Mas tinha que pintar tudo de branco! —
falou o dentista, ficando vermelho.
—
Ma non sembra la Cappella Sistina? Bello! Bello!
— Está belo na Capela Sistina. Isso aqui
é um consultório! Meus pacientes não vão querer olhar para as coisas de Adão
enquanto fazem canal nos dentes.
— Non
importa. È come promesso sulla carta. Come la cappella sistina.
O dentista olhou para a réplica perfeita
do afresco “A Criação de Adão” em seu teto e suspirou. Desistente, apenas estendeu os
duzentos reais ao pintor, que, em sua cabeça, deveria ser algum doidinho
de pedra que andava por aí falando italiano e se achando o Michelangelo.
Ofendido pela não apreciação de seu
trabalho, o senhor rejeitou o dinheiro e marchou para a janela resmungando.
—
L'uomo implora Dio per Michelangelo e poi si lamenta. Ingrato!
Por fim, o pintor saiu pela janela, sem medo da altura
de seis metros até o chão da rua. As pessoas presentes correram assustadas para
ver o corpo machucado do velho. Não havia nada, contudo. Olharam para cima e
viram o pintor sendo carregado por belos anjos renascentistas até desaparecer
no céu entre nuvens brancas.
Viraram-se atordoados o dentista, sua vizinha e a recepcionista. Mais atordoado ainda estava Dr. Emiliano Sistino, a refletir na frase dita pelo artista levado por figuras angelicais seminuas. Era como se o pintor soubesse o que ele havia dito aos céus brincando na sexta-feira.
Pegou o cartão de visita de seu bolso. Simoni - serviços de pintura. Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni.
Como não percebeu isso antes? Repentinamente, o cartão evaporou de sua mão como
água jogada na chapa quente. Balançou a cabeça tentando acordar. Era um
milagre. Deus lhe emprestara Michelangelo.
Então, deitou na cadeira do paciente, protegida pelo
lençol, e pôs-se a olhar de boca aberta o afresco fresco no teto de seu
consultório. Seria tolice gastar mais dinheiro para cobrir a inspirada obra.
Por fim, sorriu e riu. Era o fim da infiltração. Era o fim da obra. E uma obra-prima configurava em seu teto antigo de dentista velho.
Desconcertada com a situação, a colega dentista olhou
de um lado para o outro, muito sem graça.
— Melhor eu sair para almoçar. É…. Obrigada por me
mostrar como ficou o consultório. Bem original, eu diria. Quero dizer: não é todo dentista que tem uma pintura no teto do
consultório. Acho que os pacientes vão gostar, é…. A Dona Maria deve passar
aqui. Está com uma infiltração no canal dentário que "oó". É... Licença! — A jovem
falou sem muito jeito. Fechou a porta prometendo a si mesma parar de ficar sem comer por tanto tempo a ponto de ter alucinações.
Com o passar dos dias, novos e velhos pacientes apareceram para
serem atendidos no consultório novinho.
Alguns perguntavam se a pintura era uma referência ao sobrenome de Sistino. O dentista ria e dizia que queria que seus pacientes se sentissem no paraíso. Deu certo. A
agenda ficou rapidamente cheia. E ele já não dava conta.
Um mês depois, as revistas novas
encheram a sala de espera do cento e dois unida à sala cento e um. Ao som de
música clássica ambiente, uma recepcionista reagendava consultas pelas redes
sociais da clínica equanto a outra atendia telefonemas insistentes dos jornais. À porta recentemente pintada de branco,
fixou-se uma placa com letras douradas: "Clínica Céu da Boca - Cirurgiões-Dentistas Dr. Emiliano Sistino e Dra.
Sílvia Pasquim".

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