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Conto: Lua e Sol nas mãos de Ara

      A pedido de um único ser humano, o sol permaneceu no céu por mais uma hora do que costume. Depois desse dia, o criador de todas os povos de todas as terras achou por bem o teste de conceder a responsabilidade do dia e da noite a um único ser humano.  O poder de transformar dia em noite e noite e dia foi quase todo concentrado num colar com duas pedras preciosas, uma em cada extremidade do cordão. A pedra da cor do céu do dia. A pedra da cor do céu da noite. Para transformar noite em dia e vice-versa, bastava inverter o colar: a pedra da noite à frente do colo traria a noite; a pedra do dia à frente traria o dia.     O criador decidiu enviar um mensageiro para entregar o colar a uma jovem moça de uma aldeia além-mar,  onde a maldade humana não havia transbordado como nos outros povos. A aldeia era cercada por densas matas e rios fluentes de modo que poucos povos haviam encontrado o local. Ali o sol sempre se punha no mesmo horário e o calor e...

Conto: Chato Bot

      O primeiro ano da faculdade de Ciências Econômicas estava me estressando. Tudo o que era dito em aula parecia testar minha inteligência além do normal. O vocabulário dos textos e sua complexidade me assustavam. Sinceramente sentia falta dos livros didáticos do Ensino Médio, com seus glossários explicadinhos e linguagem didática. A exigência dos professores indiferentes me faziam sentir que eu havia sido ensinada por babás por todo o ensino básico. Parecia que eles esperavam que eu soubesse tudo.        Em menos de dois meses tirei minha primeira nota baixa na disciplina do professor mais carrancudo. Foi um dois humilhante. A nota me pegou de surpresa porque não estava acostumada com notas tão abaixo da média. A minha única esperança de passar naquela disciplina passou a ser uma nota muito boa no trabalho final escrito, cujo prazo era apertadíssimo. O tema era inflação. Decidi escrever sobre o caso da inflação da década de 1980. Sim. Eu decidi dis...

Rejuntes Reluzentes

     As toneladas de informações diversas zapeavam pela tela. Eram vídeos de gatinhos brincalhões, piadas, receitas de lanches rápidos. Tudo a entretinha e tudo era muito engraçado. Ria-se sozinha. Ou melhor, ria. Há muito nem ela mesma estava presente na sala. Enquanto passava o dedo pela tela do celular, não sabia se estava absorvendo informação ou sendo absorvida pela tela. Ah! Tudo tão inocente e em paz... Em paz até que Denise chegou ao trigésimo ou quadragésimo vídeo.      Uma mão feminina colocando bicarbonato de sódio com água oxigenada no rejunte do piso de cerâmica. O rejunte saía limpo como nunca. De repente, ela se deu conta: nunca lhe passou pela cabeça a necessidade de deixar o rejunte tão limpo. Denise encarou o rejunte escurecido de sua sala e engoliu a seco. "Eu nunca percebi que era assim sujo", murmurou. Ansiosa, começou a questionar suas aptidões para limpeza da casa. Foi ali que decidiu que iria limpar o rejunte do piso de toda casa. El...

Conto: Objetificação

       O céu estava cinza. A tira da sandália nova roçava no calcanhar enquanto sua dona se apressava para a estação do metrô. Era um calçado baixo e macio, preto, custara trinta e cinco reais numa sapataria popular. Contudo,  mentira que seria totalmente confortável.  Aos poucos, a tira abriu uma ferida no local em que se atritava. Com o calcanhar já sangrando, a moça grunhiu. Depois, xingou o calçado de porcaria barata. A sandália respondeu se raspando mais um pouco no machucado.      Não demorou muito e a rasteirinha foi parar em uma lixeira na frente de uma sapataria. Crime: culpada por pegar no pé da pessoa errada. A sandália, entretanto, era novinha. Daquelas que ninguém joga fora, mas fica preterida guardada no armário. Poderia ter sido doada ou vendida em um brechó. Mas não, foi atirada sem dó na lata do lixo.     Após trinta e oito minutos, um catador de latinha começou a cutucar o lixo e jogou...

Crônica: A rainha morreu!

     "A rainha morreu!"     A notificação de meu celular apresentou as três palavras soltas e sem vida da mesma forma que sempre anunciava que meus créditos acabaram. Surpresa e incrédula, engoli a última colherada do meu almoço e peguei o aparelho para verificar a mensagem. Cliquei. Era um amigo avisando exatamente aquilo que eu havia lido: a rainha morrera. Entretanto, a informação parecia muito suspeita porque a rainha britânica era como prótons e elétrons. Isto é, ela não estava viva e, sim, existia como parte constituinte do universo que Deus criara. Que haja Elizabeth!     Levantei a sobrancelha e digitei: "deixa de ser mentiroso!"     A resposta rebateu rapidamente: "por que eu brincaria com algo assim?"    Não que eu duvidasse da integridade moral do portador da notícia, mas as pessoas brincavam sobre a falecida todos os dias. Que o primeiro pet da monarca inglesa fora um estegossauro. Que ela fora c...

Conto contemporâneo: Quem vive sem cebolas?

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     Era sexta-feira de tardezinha. Era daquelas tardezinhas que não são frias e nem quentes. Daquelas tardezinhas calmas em que o céu está com poucas nuvens e a rádio do vizinho toca samba-de-raiz. Aparentemente, tudo estava bem. Menos para Dona Tânia.      Acabaram-se as cebolas. Como viver sem cebolas? Dava para viver sem tomates, mas cebolas? Nunca! Com cebolas, se refogava arroz, frango, carne bovina, peixe. Temperavam-se caldos. Faziam-se vinagrete e farofa. Isso era tão verdade verdadeira absolutaque era a primeira coisa que Dona Tânia fazia ao cozinhar. Nenhum país (quiçá mundo) poderia permanecer em paz sem cebolas por muito tempo.     Ela grunhiu ao contemplar a gaveta inferior da geladeira. Não só faltavam cebolas como também as batatas e seus amigos turbérculos. Ergueu a coluna e reclamou da dor nas costas. Daí, com desdém fitou o carrinho de compras jogado no chão do quintal. Estava na hora de ir ao horti-fruti e Dona Tânia só queria ...

Micro-conto: Sujeita Acumulada

O pente preto de Eraldo caiu para debaixo da cama. Ele suspirou e se agachou para tatear pela sujeira acumulada. Não encontrando-o, o homem foi buscar uma vassoura para arrastar qualquer coisa que ali estivesse. Após muito cavoucar com a vassoura, ele trouxe para si: uma caneta, um frasco de remédio para dor nas costas,  um carrinho de Sérgio e dois grampos. O seu pente veio na última vassourada. Então, Eraldo limpou o objeto, pôs no bolso e devolveu todo o resto para onde havia achado. Debaixo da cama. Sentou-se no sofá, ligou a televisão e gritou: — Sandra, achei seu remédio para dores lombares. Você não varre debaixo dos móveis não, mulher?