Conto: Chato Bot
O primeiro ano da faculdade de Ciências Econômicas estava me estressando. Tudo o que era dito em aula parecia testar minha inteligência além do normal. O vocabulário dos textos e sua complexidade me assustavam. Sinceramente sentia falta dos livros didáticos do Ensino Médio, com seus glossários explicadinhos e linguagem didática. A exigência dos professores indiferentes me faziam sentir que eu havia sido ensinada por babás por todo o ensino básico. Parecia que eles esperavam que eu soubesse tudo.
Em menos de dois meses tirei minha primeira nota baixa na disciplina do professor mais carrancudo. Foi um dois humilhante. A nota me pegou de surpresa porque não estava acostumada com notas tão abaixo da média. A minha única esperança de passar naquela disciplina passou a ser uma nota muito boa no trabalho final escrito, cujo prazo era apertadíssimo. O tema era inflação. Decidi escrever sobre o caso da inflação da década de 1980. Sim. Eu decidi discorrer sobre uma inflação clichê que já se fora há quarenta anos.
Bem, a minha pessoa havia passado meu Ensino Médio todo recorrendo à inteligência artificial para redigir qualquer tipo de textos. Agora eu precisava citar fontes e tudo mais! Em tamanho desespero, dificilmente conseguiria ler um livro e elaborar um texto assim sem nenhuma prática. Porém, plena como uma pluma, sentei-me diante do computador e acessei o chatbot. Parecia errado começar minha vida acadêmica com esta frase: "Escreva um texto de dois mil palavras sobre a inflação brasileira da década de 1980".
Em segundos, um ícone redondo passou a girar diante de mim. Girou, pensou, girou mais um pouco. Em questão de menos de um minuto, brotou um texto de dois mil palavras sobre a danada da inflação da época do Michael Jackson. Bati palmas e sorri. Então pus-me a ler a obra da inteligência artificial. Contudo, o sorriso foi esvanecendo rapidamente e respondi ao chatbot: "Fernando Henrique Cardoso não fez o Plano Cruzado". O ícone voltou a girar e o chat reformulou o texto. Não! O "Plano Verão" não foi em 1981, Chat burro!
O que estava acontecendo com aquele bot? Ou a inteligência artificial parecia estar trocando dados de propósito para me irritar ou a inteligência artificial ficara burra. Pensei em todas as possibilidades, mas enfim, acusei-lhe: "Você está trocando informações importantes do texto de propósito." O ícone passou a girar e girar. Parou e eis que me veio o absurdo:
"Bob Dylan é um dos mais influentes músicos e compositores da história, conhecido por seu papel fundamental na música folk e rock. Nascido em 1941, ele conquistou fama nos anos 1960 com canções de protesto."
Pronto! O bot pirou de vez. Agora falava do assunto que lhe apetecesse. Não que eu não gostasse de Bob Dylan e não preferisse escrever sobre o artista, mas o que o cantor não tinha feito nada para o arroz custar mais barato em 1985. Poré, devo confessar que se eu fosse um bot. escreveria sobre minha banda favorita caso alguém me pedisse para elaborar textos sobre inflação.
Tentei novamente negociar com a inteligência artifical, "O texto não é sobre Bob Dylan e sim sobre a inflação brasileira da década de 1980." O ícone ressurgiu e demorou sua rotação por quase 2 minutos. Bati os dedos na mesa e tive que suportar o desaforo da máquina. Parecia demorar por pura implicância. Um vingança talvez por eu estar a fazendo escrever sobre um tema tão chato.
Finalmente, veio sua resposta: "O silêncio é um refúgio necessário em um mundo tão barulhento. Ele nos permite ouvir nossos próprios pensamentos, reorganizar ideias e acalmar o coração."
Um gritinho me escapuliu e dei um soco na mesa. Não era possível! Rebelião das máquinas um dia antes de eu entregar meu trabalho! E ainda se rebelava sendo poética e falando de silêncios. Foi quando dois toques na porta me tiraram o foco da minha indignação.
— Camille, está tudo bem? Ouvi um grito — minha avó entrou sorrateira no quarto. Bem magrinha, com seus óculos grossos, vestidinho florido
— Não, vó. Preciso escrever sobre a inflação dos anos 80 e o computador não fala nada com nada.— disse, esfregando o olho. — O trabalho é para amanhã e tem que ser perfeito!
— Anos 80? Minha filha, aquele período foi horrível. Lembro-me das filas no supermercado. Do Sarney. O fim da ditadura sendo empurrada com a barriga. Teve aqueles planos malucos um após o outro.
— Tipo, o Plano Verão? — perguntei entusiasmada
— Sim. Esse aí foi em 89, no ano que seu avô comprou aquele carro horroroso. Você não era nascida.— ela comentou, virando-se para o corredor. — Tem uns livros de História do seu pai sobre isso tudo aí, vou buscar. Esquece esse computador e faça o trabalho como um ser humano.
O chato bot, maroto, me encarou. Perguntava como ele poderia ajuda-me. Suspirei fundo e tive que concordar com vovó. Estava na hora da humana pensar como humana. Abri o editor de texto, fiz o cabeçalho do trabalho e gritei:.
— Vó, além dos livros, vou precisar da senhora também.
Comentários
Postar um comentário