Rejuntes Reluzentes

    As toneladas de informações diversas zapeavam pela tela. Eram vídeos de gatinhos brincalhões, piadas, receitas de lanches rápidos. Tudo a entretinha e tudo era muito engraçado. Ria-se sozinha. Ou melhor, ria. Há muito nem ela mesma estava presente na sala. Enquanto passava o dedo pela tela do celular, não sabia se estava absorvendo informação ou sendo absorvida pela tela. Ah! Tudo tão inocente e em paz... Em paz até que Denise chegou ao trigésimo ou quadragésimo vídeo.

     Uma mão feminina colocando bicarbonato de sódio com água oxigenada no rejunte do piso de cerâmica. O rejunte saía limpo como nunca. De repente, ela se deu conta: nunca lhe passou pela cabeça a necessidade de deixar o rejunte tão limpo. Denise encarou o rejunte escurecido de sua sala e engoliu a seco. "Eu nunca percebi que era assim sujo", murmurou. Ansiosa, começou a questionar suas aptidões para limpeza da casa. Foi ali que decidiu que iria limpar o rejunte do piso de toda casa. Ela precisava resolver esse problema que ela não sabia que tinha. Afinal, o que sua avó diria se o rejunte de sua estivesse encardido? O que as vizinhas diriam? O que entregador de botijão de gás pensaria dela?

    Na manhã seguinte mesmo, dirigiu-se para a farmácia como se numa missão de paz. Entrou naquele amplo espaço branco e cheio de prateleiras, pôs-se a procurar pela água oxigenada e o bicarbonato. Em vão. Cruzou os braços e bufou. Daí, uma atendente se aproximou.

— Procura algo? Posso ajudá-la?

— Sim. Por favor preciso de água oxigenada e bicarbonato de sódio para limpar o rejunte do piso de minha casa.— disse acanhada.

    A atendente franziu a testa e lhe entregou o produto.

— Nunca ouvi falar de tal coisa. Funciona mesmo? Na verdade, nunca sequer pensei em limpar rejunte com tanta vontade.

— Vi na internet.— Denise sorriu sem graça.— Não sei se dá certo.

    Ambas acenaram e concordaram que não se discute com um vídeo da internet. Ambas concordavam com a seriedade do assunto. O que queremos? Rejuntes limpos como as da casa da avó. Então pagou pelos produtos químicos e ainda comprou uma seringa para ajudar a aplicar a mistura maluca. Segurou firme o saquinho da farmácia e se despediu da atendente. Após o almoço, Denise poria em prática seu plano

     Enfim, o piso a chamou. Limpe-me. Limpe-me. Pegou os produtos e fitou as embalagens.. Depois contemplou o rejunte. Depois os produtos. Depois o rejunte. Roeu uma unha do dedo mindinho. E se der errado? E se eu fizer a mistura e ela abrir um buraco em meu piso a ponto de ver a sala da vizinha de baixo? E se a mistura exalar uma gás tóxico e eu desmaiar? Já vi isso acontecendo na internet. Sentou-se por um minuto e vislumbrou toda parafernália que comprara. Será que preciso mesmo limpar rejunte??

        O marido de Denise entrou na sala e a encontrou em estado de transe no sofá. Olhos esbugalhados enxergando o nada. Ele perguntou o que havia com ela e porque não estava a fazer crochê como sempre. Timidamente ela mostrou os produtos químicos e seringa.

 — Isso é para limpar o rejunte do piso. Fica branquinho. Eu vi na internet.

— Que ideia louca! Para que limpar rejunte? Quem liga para rejunte de piso? E isso nem deve funcionar.—riu o marido. — Vou para casa da minha mãe e já volto.

    Denise entortou sua boca e se indignou com o marido. Sempre desacreditava tudo que ela via na internet, Como assim ninguém liga pra rejunte? Como assim não vai funcionar? Ela vira o vídeo como se estivesse presente na demonstração. Não havia dúvidas que funcionaria. 

     Levantou-se após a despedida do marido, já determinou que usaria a mistura do limpante milagroso. Agachou-se. Mal colocou o bicabornato de sódio no rejunte e ele efervesceu com a água oxigenada aplicada pela seringa. Algo com certeza estava limpando com aquele borbulhar todo! Sorriu e saiu a aplicar em todos os rejuntes da pequena sala. Depois passou um pano para retirar a química. Sucesso! A sala brilhava de reluzir! 

     Deu três pulinhos de alegria. Foi à cozinha e fez o mesmo processo. Seguiu para os quartos e para os banheiros. Rejuntes! Rejuntes em todo lugar! Tudo branco! Tudo limpo! A avó se orgulharia. Denise certamente era a melhor das donas de casa. A única com rejuntes brancos! Não havia rejuntes mais limpos em todo o mundo!

    Cansada, sentou-se novamente no sofá! Ria e falava sozinha. Eu falei. Eu falei que daria certo. Não se abriu nenhum buraco. Eu não morri intoxicada. Pegou o celular e passou a ver mais vídeos curtos. Riu de todos eles. Satisfeita. A internet era uma maravilha.

   — Caramba, o que aconteceu aqui?!?!?! — o marido de Denise chega assustado.

— Está tudo limpo. Como falei.

— Pois faço questão de sujar de volta nesse mês! Meus olhos doem com tanta branquidão. Prefiro o rejunte escurecido de poeira. — disse rindo e foi-se para o banheiro. — Era melhor você ter feito crochê.

    Incrédula e desprestigiada, Denise ignora o marido e continua a assistir os vídeos curtos. Caramba, eu não sabia que tinha para limpar o interior do ralo do banheiro! Amanhã mesmo vou comprar vinagre e....


 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conto Realista Fantástico: Imagina só, menina!

Conto: Objetificação