Conto: Lua e Sol nas mãos de Ara
A pedido de um único ser humano, o sol permaneceu no céu por mais uma hora do que costume. Depois desse dia, o criador de todas os povos de todas as terras achou por bem o teste de conceder a responsabilidade do dia e da noite a um único ser humano. O poder de transformar dia em noite e noite e dia foi quase todo concentrado num colar com duas pedras preciosas, uma em cada extremidade do cordão. A pedra da cor do céu do dia. A pedra da cor do céu da noite. Para transformar noite em dia e vice-versa, bastava inverter o colar: a pedra da noite à frente do colo traria a noite; a pedra do dia à frente traria o dia.
O criador decidiu enviar um mensageiro para entregar o colar a uma jovem moça de uma aldeia além-mar, onde a maldade humana não havia transbordado como nos outros povos. A aldeia era cercada por densas matas e rios fluentes de modo que poucos povos haviam encontrado o local. Ali o sol sempre se punha no mesmo horário e o calor era sempre presente dia e noite. As ocas arredondadas e grandes se abraçavam porque ali todos cuidavam um do outro.
Deste modo, diante de todo o povo, o mensageiro desceu de forma majestosa. Homens e mulheres tremeram diante do ser alado que não tinha cor humana, pois brilhava como o arco-íris. Ele discursou com voz forte sobre sua missão e andou até Iraci colocando-lhe o colar no pescoço. Explicou a todos a responsabilidade da moça dizendo que o criador se agradara de seu coração e de sua dedicação à aldeia. "é dever de todos proteger a portadora do colar para que ela não caia em mãos de aldeias que desagradam o criador". O grande chefe, honrado pela escolha da seu povo como guardião do poderoso e divino colar, jurou que Iraci seria protegida mais que a um bebê. Seria colocada na oca central onde os mais bravos guerreiros certificariam que ela estivesse bem dia e noite
Na manhã seguinte, Iraci inverteu o colar e a noite virou dia. Tão cedo, pôs-se a ir ao milharal. Porém, a esposa do chefe lhe tirou as ferramentas prontamente. "Cauã quer que só tenha por obrigatória a tarefa de cuidar do dia e da noite. Muito pesada é essa tarefa para se preocupar com colheita de milho". Iraci obedeceu sem questionar. Assim, a jovem viveu por cinquenta colheitas trocando o dia e a noite de forma exemplar e meticulosa, observando o vento e as sombras. Foi um tempo de muita paz na aldeia. As colheitas foram fartas, a pesca abundante, a caçada promissora e os bebês nasceram e cresceram vigorosos. O número de ocas aumentou a cada colheita.
Chegou o dia em que a jovem virou anciã, fato que pôs o muito velho Cauã a perguntar-se quem continuaria com o legado de Iraci. Deveria ser de sua filha Jurema? Deveriam os homens da aldeia decidir algo que o criador havia decidido anteriormente? Porém, ao adormecer, o mensageiro lhe apareceu em sonho e disse: "Tempo de paz tivestes por cinquenta colheitas de milho, e o sol e a noite revezaram como um pêndulo. Chegou a hora, contudo, de o colar passar para o pescoço da jovem Ara, de coração puro mas menos presa às rédeas de seu povo e da própria ordem. Em três dias, Ara, filha de tua sobrinha, deve receber o cordão ao pôr-do-sol e transformar dia em noite para selar seu propósito."
Quando Iraci inverteu noite em dia após os pássaros começarem a cantar, o velho chefe da aldeia reuniu a todos diante da oca central e anunciou o sonho e a mensagem de que Ara seria a nova responsável pelo dia e a noite. Todos se entreolharam e Ara empalideceu. Ara? Logo Ara? Arredia feito onça e que fazia tudo apressado para poder nadar no rio? Ara... Ara que se esquecia até de limpar sua cumbuca antes que as formigas a cobrissem. Um murmúrio cobriu o centro da aldeia. Aquilo só poderia ser um pesadelo do velho Cauã.
"Silêncio! Essa é a decisão daquele que criou o colar e que de todas os povos das terras escolheu a nós! Devemos honrar sua decisão sobre Ara. Em três dias, Ara, ao pôr-do-sol receberás o colar de Iraci e o inverterás em seu pescoço para que o dia vire noite. Atenta-te às montanhas e aos ventos, não demores para que o dia se vá no momento certo" bradou o chefe.
Assustada, Ara aquiesceu e correu para sua oca, onde encontrou seu irmão Kuri febril deitado.
"Kuri, serei eu que inverterei o colar todos os dias" cuspiu as palavras. "O chefe sonhou com o mensageiro. Escolheu logo a mim" disse, andando de um lado ao outro.
"Ora, ora, agora poderás nadar o dia todo, não terás que cuidar da colheita." Kuri comentou, rindo fraco e tossindo.
"Tua cabeça é oca como um coco. Sabes que não sou boa com o tempo e sempre chego muito antes ou muito depois de tudo o que ocorre na aldeia. Como vou inverter dia e noite igual à Iraci cujas penas estão em ordem por tamanho e cor? Por cinquenta colheitas, ela inverteu o dia e noite, e tudo esteve bem." Ara respondeu, dando soquinhos na cabeça de Kuri.
Kuri se sentou e bebeu um pouco de água. "Por que estás tão preocupada, menina cabeça de vento? Se o próprio criador das pedras te confiou a tarefa é porque consegues fazê-la. Vai logo banhar-te e te põe bela para receber teu propósito. Ganhaste a vida que sempre quis e não percebes."
Sorrindo, Ara pôs a mão na testa de seu irmão. Sussurrou que ele parecia melhor que antes e não rebateu. Ele não entenderia o que é de repente ter que ser a Iraci, sendo ela apenas Ara. Distraída e quase errante na vida com um poder pesado em seu pescoço. Aposto que as pedras pesam, pensou.
Saiu ainda atordoada para o milharal para ajudar na colheita. As espigas já fartavam e as mulheres já haviam começado a colher. Ao verem a jovem, cochichavam e a jovem sabia que ela era o assunto. A mais velha disse, "por que vieste cedo hoje justo no dia que não precisas mais? Vieste esnobar-nos por ser a nova Iraci do mundo? Vá-te para teu rio. Vá." Ara abaixou o olhar e não respondeu. Colheu uma única espiga e saiu dentre o mundo de folhas de milho. A conversar continuou baixinho "Jurema, Jurema era quem devia..."
Esmagando a espiga com as duas mãos, Ara cogitou ir ao rio mesmo. Poderia banhar-se e ouvir o som das águas. Porém, ao lembrar da cerimônia ao fim da tarde em três dias, decidiu visitar a guardiã anciã do colar. Talvez ela tivesse algo sábio para dizer sobre sua nova função. Fitou a oca central. Sabia que iriam pô-la a dormir ali e não mais com sua família na oca das beiras. Não poderia mais conversar com seus irmãos e pais à noite. Não poderia entrar para dormir de fininho como sempre fazia em noite de luar.
Por fim, entrou na oca central, relutante. Iraci se punha deitada ao lado de sua filha Jurema, um pouco mais velha que Ara. As jovens trocaram olhares e Ara sabia o que Jurema pensava. Sim, toda a vida a família achou que ela seria a nova guardiã do colar do dia e da noite. Era até mais sensato. Jurema era meticulosa como a mãe, fazia tudo como todos esperavam dela. A aldeia precisa de uma Jurema e não de uma Ara.
"Jovem Ara, faz tempo que não te vejo. Sente-se perto de Jurema."
"Sim, nhanderu." sentou-se e suspirou, "Posso lhe fazer algumas perguntas?"
A senhora balançou a cabeça que sim.
"Como conseguiu carregar o colar por tanto tempo sem enlouquecer?"
Iraci gargalhou como uma criança. "Ara, por muito tempo, eu fiquei louca e obcecada com a tarefa. Não podia ir à floresta sozinha. Com o tempo, só pedia ao criador que me lembrasse caso esquecesse. Os pássaros me despertavam e o criador enviava um vento refrescante no fim da tarde."
"Ela só era uma pessoa normal que fazia o que tinha que ser feito. Virar um bendito colar e não encrencar-se" ironizou Jurema e se levantou em direção à saída. "Não deve ser tão difícil, deve?"
"Não te tenhas com as palavras de Jurema. O criador me confiou uma missão preciosa de vida e isso me trouxe sentido. Por isso, não enlouqueci! Sou humana como tu és." sorriu Iraci.
"Como não perdeste o colar? Acho até que perderei o colar." Ara tampou metade do rosto.
"Ora, quando me banhava no rio, eu simplesmente o amarrava à mesma árvore com a pedra do dia para baixo. E a noite, eu o pendurava o colar com a pedra da noite para baixo para que as pedras não mudassem enquanto eu dormia. Como se fosse meu pescoço. Se fazes tudo sempre igual, por que esperar o caos?"
Ara concordou sem concordar. Fitou o colar no pescoço de Iraci. As pedras eram belíssimas. Ela aproximou a mão devagar e tocou na pedra da cor do céu do dia.
"Às vezes eu prefiro a noite. Ninguém espera nada de mim à noite a não ser dormir. Nunca te deu vontade de estender o dia ou a noite?"
Iraci fez que não e disse que dia e noite eram bons quando perto das pessoas certas. Sem o sol como plantaríamos e comeríamos? Sem a noite, como descansaríamos? Pensativa, Ara baixou o olhar e tocou no peito de Iraci e disse que em breve se veriam na cerimônia.
Os dias passaram estranhos e lentos. De um lado ao outro, Ara trazia o que Kuri pedia gemendo. Tentava esquecer que em questão de tempos, ela faria o dia virar noite com um colar. Conforme as nuvens passavam e as sombras andavam, seu coração se apertava e um buraco se formou no estômago. Enquanto conversava com ao febril Kuri, ele a provocava chamando-a de Cabeça de Lua ou de Raio-de-Sol. Ela não achava muita graça, mas ria.
No dia da cerimônia, então, Ara correu para banhar-se e enfeitar-se quando vento já estava dando o seu ar. Sabia que esse era o sinal. Quando chegou ao centro da oca, todos a fitavam zangados. Iraci gemia que o vento quase que cansava de soprar e a menina não aparecia. Os passarinhos já imploravam para recolher-se e as corujas há muito queriam caçar. As árvores zangadas não queriam mais dar sombra.
"Perdão, foi só um tempinho que levei para pintar-me. Não queres que eu receba o colar sem a pintura!?" Ara tentou se explicar.
O velho chefe fez sinal para que se calasse. Nunca foi feito nenhuma cerimônia de troca de guardiãs naquele povo e ele estava a matutar o que poderia ser dito ou feito. Fez, então, o que lhe veio a cabeça:
"Povo desta nobre aldeia, como sabem, o criador dos povos de todas as terras confiou à nossa aldeia o dever de proteger o colar do dia e da noite e também sua guardiã. Por muitas luas, Iraci cumpriu um papel impecável. Agradecemos a ela por sua dedicação. Reconhecemos seu esforço quase sacrificial pelo bem do mundo inteiro."
Todos os homens do povo cruzaram o braço sobre o peito e levemente se inclinaram em direção a Iraci. Ela sorriu e acenou.
"Agora o sol aperta. É necessário que pela primeira vez um nova guardiã traga a noite. Não tenho muito que dizer, apenas peço para que Iraci entregue o colar de sua responsabilidade e o coloque do jeito que está no pescoço de Ara. Ara, você sabe sua missão. Honre-a com todo seu esforço."
A anciã deu dois passos e colocou o colar no pescoço de Ara, a pedra do dia para frente. Abraçou-a e sussurrou em seu ouvido. Inverta o colar devagar para despedir-se bem do sol e afagares a lua! Não tenha pressa. Mesmo o sol e a lua não gostam de acordar rápido demais. A menina riu e segurou forte na pedra do dia. Um pio de coruja a pôs a girar o colar bem devagar. Todos olharam para cima enquanto o céu foi escurecendo e escurecendo até que o lua cheia apareceu no horizonte.
Todos urraram de alegria sob o luar. Uma grande fogueira foi acesa e as mulheres trouxeram as cumbucas cheias de milhos para todos. A aldeia cantou e bateu palmas porque uma nova era começava. Ara já não se sentia tão pressionada, apesar de se preocupar se saberia quando inverteria o colar. Talvez não fosse tão difícil. Mais aliviado de sua febre, Kuri continuava chamando Ara de Cabeça de Lua troçando que ela chegara atrasada até em sua cerimônia.
"Quero ver acordar com a passarinhada! Tu gostas de uma soneca." Jurema cutucou Ara. "Se queres, eu a chamo. Dormiremos na mesma oca."
"Fazes como queres. Ao piar do primeiro pássaro, o sol já terá sido chamado" Ara respondeu, mas sem muita confiança. Só não queria Jurema achando que ela dependia de ser despertada para cumprir sua única tarefa.
Logo, o povo se recolheu às ocas. Ara já sabia que teria que dormir na oca central, longe de sua família. Pelo menos, Iraci estaria lá. Pensou no acolhimento da anciã e repetiu que tudo iria dar certo. Tentou levar sua rede, mas não a deixaram. Uma nova rede mais bonita havia sido preparada apenas para ela. Escoltada para dentro da oca, Ara contemplou sua rede nova com cores vivas e difíceis de conseguir. Deitou-se, sem antes tirar o colar e pendurar da maneira como Iraci explicara. Cauã se aproximou da rede e disse algo como um grupo da aldeia depois do rio viria no dia seguinte apenas para conhecê-la. Amigos. Tente deixar uma boa impressão. Ele disse, pigarreando.
"Sim! Comportar-me-ei muito bem." Ara murmurou e se virou na rede. Parecia até que ela era filha de seu tio-avô.
A escuridão a envolveu sem perdão e ela tentou olhar para saída onde via a fraca sombra de dois homens. Os protetores da guardiã do colar. Havia esquecido que Iraci sempre fora escoltada e hoje era ela a pérola rara. Nunca mais ela poderia se entranhar sozinha na floresta em noite de luar. E daí, lembrou-se de nadar no rio consigo mesma. Como contraponto, tentou encucar em si que nunca mais temeria onças ou serpentes, ou estranhos na mata. Nunca mais tardes no milharal. Em vão aquilo tudo a consolava. Restou-lhe adormecer.
A madrugada rastejou enquanto todos dormiam. Como sempre, os guardas revezavam à porta da oca central em silêncio. Aos poucos os grilos e sapos fraquejavam em seu canto e um ou outro passarinho mais apressado piava feliz aguardando a luz do sol com ansiedade. A lua já não estava querendo brilhar e estava longe do centro do céu. Assim em breve Ara precisaria trocar os reis do dia e da noite.
O silêncio foi, então, rompido por um urro barulhento vindo da floresta. Logo as ocas das laterais esquerdas passaram a vomitar mulheres e crianças gritando. A aldeia acordou em peso no mesmo respirar e os homens mais ágeis entenderam que estavam sendo atacados por algum inimigo. Primeiro, os guerreiros que dormiram nas ocas laterais se puseram a resistir os invasores como podiam. Sem armas, sem nada. A seguir, o resto dos homens buscaram suas armas para se juntar a eles. Porém, em questão de pouco tempo os inimigos entraram pelas outras ocas gritando com as mulheres jovens que conseguiam agarrar. Onde estão as pedras? És a menina guardiã?
De súbito, os guardas entraram na oca central e puxaram Ara pelo braço. Vem. Eles te querem. Ainda cambaleante de sono, arrastaram-na pelo milharal até entrar na densa floresta.
"Quem pode ser?" Perguntou um dos guardas ao seu companheiro de vigia, mais alto que ele.
"As cores das pinturas de guerra são do povo além do rio. Eu vi ao longe quando entraram. Traíram-nos." respondeu com firmeza.
"O que querem?" Ara se intrometeu, ofegante com a velocidade dos homens.
"Eles viriam para conhecer-te nesta tarde. Sabem que Iraci não está mais com o colar. O que mudou em suas mentes? Só sabemos que eles te querem ou querem o colar."
"O colar só funciona com a guardiã!" exclamou Ara, fazendo os dois homens calar-se. Apressaram-se mais ainda para dentro do mato. De repente, um deles parou.
"Está escuro ainda! Como lutarão os homens? Ara, chama o sol mais cedo!" disse o mais alto.
Ara apalpou o pescoço e se deu conta que colar ficara na parede da oca. Apreensiva ela olhou para trás e a aldeia já estava longe, escondida pelas árvores e arbustos.
"Temos que voltar. O colar está na parede da oca!" Ara disse, soltando-se da mão do guarda.
"Menina, por que não trouxeste o colar? Iraci nunca se separava do colar!" esbravejou o guarda.
"Acordar de repente não me permitia lembrar-me nem do meu nome e nem sequer que eu era guardiã de um colar que me foi dado só ontem. Eu vou lá buscar" defendeu-se Ara
"Não! Ficas aqui segura com Jacir! Sem ti, o colar não vale nada. Eu buscarei teu colar para que chames o sol. Jacir, leve-a à caverna."
Os dois guardas acenaram com a cabeça e se despediram. A Ara, restou ser acobertada pelas paredes frias da caverna e esperar por seu chamado. Enquanto ela jogava pedrinhas que ecoavam, Jacir parecia emburrado fazendo fogo em um local tão úmido. Não trocaram palavras, o que deixou Ara solitária em sua autocrítica. Em minha primeira noite de guardiã não consegui fazer o básico que era estar sempre com o colar a meu alcance. Os guardas poderiam ter me lembrado. Não. Eles não precisariam lembrar Iraci. A culpa é só minha. Minha família... Alguns morcegos voltavam para a caverna como se dissessem que cansaram de voar pela noite. A verdade é que a manhã poderia ter chegado cedo desde que saíram da aldeia. Os guerreiros conseguiriam lutar melhor contra os invasores.
"Jacir, meu colar já deveria estar aqui. Temos que ir à aldeia. Alguma coisa aconteceu com teu amigo." Ara finalmente quebrou o silêncio. "Se eu ficar esperando aqui, muitos podem morrer!"
Sem muita relutância, Jacir concordou. O outro guarda pode ter sido pego na luta e tardar-se na caverna só faria o sol demorar mais a aparecer. Pensou. Deixaria Ara no milharal enquanto buscasse o colar na oca. Apressaram-se por entre a mata escura. Logo o milharal chegou e Jacir correu para a oca central. Ara foi forçada a se agachar onde meia dúzia de crianças pequenas se escondiam.
"Ara, traz o sol, Ara! Estou com medo. Mãe disse que agora você fala com o sol para ele parar de se esconder." um menino sussurrou.
"Quieto, menino!" disse a mulher que zelava pelos pequenos.
"Se eu entrar, eles me pegam. Preciso do colar na prede da oca central" Ara olhou com olhos vidrados na outra mulher.
"Eu sei onde está o colar! Eu vou pegar. Nenhum guerreiro me impedirá" saiu correndo um garoto que já vivera dez colheitas de milho.
Com o barulho da luta, a mãe do menino se apavorou. Contudo, ela sabia que ele estava certo. Os guerreiros inimigos não dariam atenção a um guri em meio a tantos homens fortes resistindo. Em menos de um piscar de olhos, o corajoso voltou saltitando com o colar. Falei. Falei. Eu sabia onde estava. Iraci me mostrava. Jogou-o aos pés de Ara. Chama o sol, Ara!
O colar no pescoço chegou a pesar com peso da situação. Ardia-lhe as pedras na mão. Ara fechou os olhos e se lembrou das palavras de Iraci. Despede a lua devagar e afaga o sol. Lentamente foi passando a corda pelo pescoço, invertendo as pedras. O rei do dia apareceu no horizonte e os pássaros cantaram sem controle, como se estivessem quase engasgados. Até a cigarra berrou mais alto enquanto as formigas graúdas brotavam do chão em busca de alimento. O orvalho ansiava por secar.
Dentro de um tempo das sombras se moverem, um urro de vitória acordou o restante dos animais do dia. Os inimigos bateram em retirada por dentro do milharal, quase pisoteando os que ali estavam. Ara agarrou a mão do garoto e saiu na aldeia. Quando pisou a frente dos homens, eles emudeceram e a fitaram com o colar. A face de Ara se avermelhou tentando entender . Finalmente Jacir teve coragem de falar.
"Sinto muito. Kuri... Estava muito doente para lutar. Foi um dos primeiros a perecer. Muitos homens das primeiras ocas atacadas morreram, Ara. Estavam todos desarmados." Jacir explicou com a voz séria.
Ara caiu com os joelhos no chão e apertou a pedra do sol contra o peito. Lágrimas caíram no solo vermelho. Minha culpa. Eles estavam atrás de mim. Poderiam ter-me levado e deixado Kuri em paz. Fechou os olhos tentando abafar as conversas ao redor com as mãos no ouvido. Por que essa daí demorou tanto para chamar o sol? O colar não estava com ela. Tiramo-na da oca sem o colar. Iraci nunca teria deixado o colar na oca. A garota é só inexperiente. Meu filho morreu por instantes de escuridão. O irmão dela também se foi; não seja dura. Não vê que sofre? Foi-lhe bem ensinado para que não fizesse mais isso. E meu marido que a protegia!? Morreu com uma flecha no escuro na frente da oca central!
Sem aguentar mais as acusações das mulheres e dos homens, Ara correu em direção do milharal e adentrou a mata viva. Tropeçava nas raízes e escorregava em pedras cheio de limo enquanto suas lágrimas deixavam um rastro invisível na terra. Em certa altura, percebeu que corriam atrás dela e se jogou no rio para despistar. A água gelada fez o colar flutuar para fora de sua cabeça no momento em que pulou. Levado pela correnteza, Ara se viu obrigada a nadar atrás dele. Quatro homens se jogaram no rio. Assim a jovem não sabia se pescava o colar ou fugia deles. Por milagre, o colar se prendeu em um galho à beira do rio. Ela pode, enfim, agarrá-lo e sentou-se na margem do rio por um pouco. Colocou o colar no pescoço e se pôs a decidir o que faria. Esses homens vão me achar aonde eu for. Sabe-se lá o que querem comigo. Melhor... Não! Mas...
Sem afagar a lua e sem despedir-se do sol, Ara puxou pelo pescoço o colar. A pedra do dia subiu como nunca antes e a pedra da noite desceu sem tempo para entender a mudança repentina. A lua apareceu confusa e sol correu no céu para esconder-se. As estrelas deram susto nas aves. Dessa vez, não houve brisa fresca ao fim da tarde. Tudo ficou escuro numa velocidade como nunca ficara antes.
Ara levantou-se da margem do rio para tentar avistar seus perseguidores. A luz do luar não era capaz de mostrar árvores perto, muito menos os homens que a seguiam. Dificilmente seria vista também. Pensou em onde poderia esconder-se. Já estava do outro lado do rio, mais perto do território da aldeia vizinha de modo que desconhecia a área. Com a urgência de agir, saiu andando segurando-se nas árvores sem rumo até que se viu perante um paredão de pedra. O luar mostrou uma fenda na pedra. Sorriu e passou a inspecionar a presença de cobras ou escorpiões. Tudo limpo. Encaixou-se como um bebê num útero e chorou. Sentia fome. Confusa.
Kuri saberia o que fazer. Talvez ele estivesse errado quanto à sua capacidade como guardiã. No geral, ele sabia o que fazer. Sabia. Não mais. Agora ele voltava ao pó com todos os homens que morreram tentando protegê-la. Só precisava ter chamado o sol. Repetia baixinho.
Um grilo chirriou aos pés de Ara, assustando-a.
"Não era pra fazer cri-cri agora, não é? É minha culpa." o grilo pulou para o joelho de Ara. "Pareces querer algo comigo. Estou com fome, desculpa. Acho que terei de comer-te."
Ela pegou o grilo levemente e o devorou. Devorou sua única companhia, pensou. Ainda estava com fome. De repente, um barulho de fruta caindo no chão a assustou. Mal notara uma goiabeira a dez passos de si. Estava carregada. Andou se esgueirando até o galho mais baixo e pegou três goiabas. Na fenda, sabia que não poderia acender fogo sob o risco de ser encontrada; então permaneceu contida no escuro. Não sabia o que pensar ou agir. Ali hibernou em sua dor por dois dias inteiros, ou melhor, duas eternas noites inteiras.
Quase todos os homens saudáveis da aldeia acenderam tochas e encheram as matas à procura de Ara. Procuraram na caverna, procuraram na penha, procuraram nas nascentes. Procuraram até o velho Cauã urgir para que visitassem a aldeia dos seus novos inimigos. Ao chegarem lá, foram recebidos pelo velho pajé arrastando-se ao chão chorando.
"Ó, grande Cauã! Aqueles homens bestiais! Perdoai-nos! Quando souberam que o cacique visitaria a aldeia para conhecer a jovem guardiã, indignaram-se porque o poder do dia e da noite não está com nossa aldeia. O ciúme e ambição os cegaram. Contra os mais velhos, os guerreiros insensatos partiram para raptar a jovem pela madrugada. E eis que o dia se enraiveceu e não volta. Todos os tolos foram acometidos de dores fortíssimas no ventre e estão sendo tratados pelas mulheres. Nunca mais farão tal loucura"
"Povo insensato! Por isso, o mensageiro nos deu o colar e não a vós!" disse Cauã, batendo no peito. "O dia não se enraiveceu contra vós. Eis que a guardiã fugiu em seu luto pelo irmão e se esconde na escuridão da floresta. Precisamos de vossa ajuda paras encontrar a jovem para consolá-la e convencê-la a trazer o dia. Não sabemos bem andar em vossas terras ."
Em pouco tempo, juntaram-se os jovens que restaram da aldeia depois do rio e lhes foram dadas tochas. Foram instruídos a procurar pela jovem perdida em toda a região da aldeia. Não a assustem. Não a ameacem. Tratai-a como a irmã mais querida. A menina sofre embrenhada na mata. Entre eles, Igapi era jovem demais para ter participado do motim de dias atrás. Inexperiente demais para ser levado a sério para ir um evento desses. Preferia tocar sua flauta na mata no começo da manhã a procurar confusão em aldeia alheia.
Igapi pensou consigo. A moça fugirá de qualquer sinal humano. Apagarei minha tocha e irei aonde eu me esconderia. E não é longe daqui. Irei tão somente só, pois os brutamontes estragariam tudo. Fez exatamente o que ponderou: partiu diretamente para a fenda da rocha.
Assim que chegou, viu, através do luar, uma pessoa adormecida na fenda. Só poderia ser a guardiã. Aproximou-se devagar e sentou na beira da fenda. Pensou como poderia acordá-la sem assustá-la. Pegou, então, sua flauta e soprou bem fraquinho uma canção. Ara abriu os olhos.
"Estou a ouvir a flauta de Kuri. Estou louca."
"Não estás. É minha flauta. Sou Igapi. Não temas!" o jovem falou baixo.
Agitando-se, Ara viu o dorso do jovem, mas não seu rosto. Sabendo que não podia lutar com ele, perguntou o que ele queria.
"Quero conversar contigo. Todos te procuram sem perguntarem-se o motivo de sua fuga. Por que foges, jovem?"
"Esse colar não me passa de um fardo. Por mim, todas as noites serão eternas. Meu irmão se foi, também matei a muitos, para que dia se não quero nem viver? Se me acharem, serei seguida por guardas e cobrada por cada segundo. Na verdade, não sei mais o que digo ou faço" Ara cuspiu em lágrimas. "O mensageiro deveria ter chamado a Jurema."
"Quem é Jurema?" Igapi perguntou, rindo.
"A filha de antiga guardiã! Ela, sim, se preparou para isso. Jurema jamais deixaria todos no escuro apenas para esconder-se de tudo!"
"Não te conheço e nem a Jurema, mas acho que estás enganada." Igapi a tocou de leve em seu joelho. "Homens muito maus poderiam ter domado essa tal de Jurema, mas dificilmente conseguiriam domar-te. Os tempos mudaram, Ara. O coração de muitos endureceu. A guardiã nova tinha que ser como uma águia e não como um joão-de-barro."
Ara engoliu a seco aquelas palavras e enxugou as lágrimas. Tentou olhar para o rosto do jovem de voz doce e foi consumida pela curiosidade. Como Igapi era? Sem pestanejar, tocou-lhe o nariz e passou os dedos pela maçã do rosto.
'Tão escuro que nem sequer sei se és azul ou amarelo."
Igapi riu, "Se queres saber como sou, porque não chamas o dia? Ouvi dizer que sabes fazer isso bem."
Ara baixou o olhar e vislumbrou a pedra da noite do colar. Parecia um motivo sem sentido para chamar o dia, ver a face de Igapi, mas a a essa altura da situação nada fazia muito sentido mesmo.
"Se eu chamar o dia, prometes que não me prenderão?" Ara sussurou e depois riu baixinho, "Não aguento mais comer goiabas!"
"Se chamares o dia, farei questão de fazer eu mesmo que todos os teus dias sejam livres." Prometeu Igapi, a mão no peito.
Ara envolveu a pedra em sua palma da mão direita. Parecia buscar coragem para prosseguir. Depois de um instante de hesitação, Igapi lhe segurou a mão direita e apertou de leve. Ara subiu devagar a pedra da noite e em segundos a pedra do dia reinava. A luz apareceu devagar por dentro da fenda. aos poucos os traços de igapi surgiram. Seu nariz, seu cabelo, seu sorriso. Ara sorriu. Igapi saiu da fenda e lhe deu espaço para passar.
"Vem, chega de goiabas!" disse segurando-lhe a mão e levando-a pra aldeia mais próxima.
Nos dias e noites seguintes, as duas aldeias fizeram uma longa festa pela volta da alternância dos astros. Eles viram que isso tudo era bom. Muito bom. Todos esses dias, Igapi foi até a oca de Ara para acordá-la com a flauta e ela chamava o sol. Todos notaram a sintonia dos dois. Chamavam-nos de sol e lua. Quando as aldeias voltaram a se dividir, o pajé e Cauã se apresentaram aos dois:
"Ara e Igapi não podem mais viver longe um do outro. Quem acordará a jovem antes dos pássaros para que haja sol? Quem irá protegê-la na floresta em noite de luar? Quem a vigiará quando ela estiver no rio? Se a nossa aldeia não porta o colar, por meio de Igapi ajudará a protegê-lo" disse o pajé, pondo a mão sobre o ombro do jovem.
Os dois se entreolharam. Finalmente, Igapi a tomou e a abraçou, encostando sua testa na dela. Chamou-a de raio-de-sol. Ela riu.
"O raio-de-sol és tu que me fizeste trazer o sol. Seja eu para ti como a estrela do sul, que te levei até mim."
Muitos dias e noites se passaram. Muitas colheitas também. Luas trouxeram bebês e crianças. O sol fez secar o orvalho e fez o fruto da terra crescer. Até que Ara respirou em sua rede seu último sopro de vida. O criador de todos os povos de todas as terras recolheu o colar do dia e da noite com sua própria mão. Aos homens, não mais seria dado o controle do dia e da noite porque os homens ainda não conseguiam aprender a amar a sabedoria e respeitar o papel de todos os seres.
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