Conto: Bolo de tudo
Contos de escritores brasileiros contemporâneos
A
prima que morava em outro estado estava sentada, sorrindo, no sofá reformado já duas
vezes. Seu nome, Ana Guilhermina, nunca havia sido mencionado naquela casa por
algum motivo que Letícia desconhecia. De práxis, a jovem Letícia teve que ficar
de sala com a visita, enquanto a mãe lhe preparava um bolo para o café da tarde.
Ana Guilhermina aparentava ter quarenta e cinco anos, porém sua maquiagem
carregada mais lhe aumentava a idade que ajudava. Ela falava muito e Letícia muito pouco. Assim, para mostrar interesse, Letícia focou na
sobrancelha exageradamente fina da mulher.
Felizmente,
a prima engatava num assunto após o outro de modo que à Letícia restava apenas
acenar com a cabeça e dizer “sim, verdade”. Os assuntos variavam bastante: o
avião, “seus filhos bonitos e formados”, as saudades da pacata cidade onde a família de Letícia insistia em continuar morando. Ana Guilhermina também descrevia
os encantos do Rio de Janeiro quase como se ela mesma tivesse construído a
cidade a partir da primeira pedra.
Entediada, a jovem começou a
imaginar que as sobrancelhas da mulher eram uma linha com o bondinho do Pão de
Açúcar subindo. Logo depois, passou a perceber que a mulher tinha uma ruga que
ia só até metade da testa. Por fim, sentiu vontade de estourar uma pequena
espinha no queixo da prima de terceiro
grau. Repentinamente, a mulher parou de falar e ficou fitando os olhos de Letícia
como se estivesse esperando uma resposta. A garota balançou levemente a cabeça
para acordar, mas receava pedir para repetir a pergunta e denunciar sua desatenção. Disse simplesmente "sim", como até então fizera.
— Sim, o que, Letícia? Há quanto
tempo você está noiva? Sua mãe falou que faz bastante tempo. — Ana Guilhermina
perguntou, com um olhar estranho para a jovem de vinte e quatro anos com o anel
no dedo direito.
— Sim, acho melhor ver se minha mãe
precisa de ajuda com o bolo. — Letícia desconversou, levantando-se e indo para a
cozinha.
Na cozinha, Letícia esbugalhou os
olhos para a mãe, dando a entender que a visita era dela e não sua. Que sua mãe desse atenção para a prima tagarela e ela faria o bolo! A mãe percebeu o incômodo
da garota com a visita visto que a filha odiava cozinhar. Sabendo do potencial
de chateação de sua prima, a mulher deu o avental para garota
sem muito questionar e foi à sala conversar com a visita.
Na bancada, Letícia viu um mundaréu
de ingredientes esperando. Ao menos as claras estavam em neve de modo que foi simplesmente
adicionando um a um na batedeira. No momento de pegar o açúcar na prateleira, derrubou
em desastre um pacote aberto de orégano na massa. Xingou baixinho. Só lhe
faltava a mulher falante achar que ela era desastrada. Pensou e, em seguida,
pesquisou na internet de seu celular algo meio inusitado: “bolo com orégano”.
Apareceu-lhe um monte de receitas de bolos salgados. Pareceu-lhe estranho, mas
não custava tentar. Escolheu uma que ensinava uma massa com mais ou
menos o que ela já tinha usado, bastando adicionar uma colher de sopa de sal e
recheios à escolha. Um deles já tinha sido escolhido pela vida,: o orégano. Devia
apenas encontrar os outros.
Dirigiu-se à geladeira com o coração
na mão. E ali, diante da geladeira aberta, Letícia passou a selecionar os
ingredientes excêntricos do bolo já com orégano. Picou e misturou na massa o
que achou: azeitona, resto de presunto, cenoura, pimentão e um pedaço de
queijo. Adicionou o fermento e jogou a forma ao forno. Era tudo ou nada! Caso
errasse, a prima certamente perguntaria como queria casar sem saber cozinhar
direito. A inquisição já tinha sido ouvida de sua mãe, das tias e de sua
cunhada. Isso quando não questionavam quando iriam marcar a cerimônia após três
anos de noivado.
Voltou para a sala, onde Ana
Guilhermina sorria, sentada, ao lado de sua mãe, no sofá forrado duas vezes. Letícia
se fingiu de desentendida para os olhos de expectativa da prima para mais um
bocado de prosa. Então, seguiu ao banheiro pedindo licença para tomar uma ducha, porque sentia muito calor. Pelos seus cálculos, o tempo do banho seria o
suficiente para assar o bolo sem queimá-lo, sem precisar ficar de espectadora do
monólogo de uma mulher de quem nunca ouviu falar na sua vida.
Fez questão de lavar os cabelos para
demorar ainda mais no banho. Passou a ducha toda a ruminar sobre o que
responderia à prima do Litoral quanto ao seu noivado prolongado caso perguntasse
ela novamente. Certamente o diálogo discorreria da mesma forma de sempre.
Primeiro, iria perguntar há quanto tempo estavam noivos e ela diria que desde
os vinte e um.. Segundo, quereria saber a data do casamento, e ela responderia
que não tinha data certa ainda. Terceiro, ela questionaria a razão da demora, e
ela lhe diria que estavam aguardando um momento financeiro melhor para poder
celebrar a festa e mobiliar a casa. Enfim, a prima diria alguma asneira da
cabeça e, mais uma vez, Letícia ficaria dias guardando os comentários em sua
“caixinha de rancor”.
Na verdade, a maioria das pessoas
não falavam nada tão questionador sobre o tempo do noivado. Muitas só queriam
puxar assunto e diziam algo qualquer como “nossa, talvez não precisasse ser tão
grande a cerimônia”. Porém, Letícia já era fera ferida. Quando alguém tocava no
assunto, já estava pronta para levar tudo como afronta da vida. Àquela altura,
lhe parecia o fim do mundo estar naquela situação. Três anos noiva e sem data.
Sem perspectivas de melhoras. Ela e Renato desempregados, fazendo curso profissionalizante
do vereador.
Finalmente, enxugou-se, enrolou uma
toalha na cabeça e pôs o mesmo vestido leve de antes. Respirou fundo e foi-se a
encarar a visita da prima na sala. Daí, desfilou na sala sorrindo forçado e assinalou
que iria à cozinha. Em resposta, sua mãe e a prima acenaram com a cabeça para
ir adiante. Letícia percebeu um olhar de deboche na mãe consciente de todo o seu esforço para se ausentar da sala.
— Deve ficar bom! — a prima
comentou, piscando simpática.
Sem graça, Letícia deu uma risadinha e foi checar o tal
bolo maluco de orégano. Apreensiva, acendeu a lâmpada do forno – de seis bocas
só funcionavam três –.e, sem muita certeza se estava assado, espetou a massa
com um garfo. Essa parte era a parte que mais odiava, pois, de tão insegura, mal
sabia se o garfo estava molhado ou seco. E se o garfo estivesse seco e fosse
impressão sua de que estava molhado? E se o garfo estivesse realmente molhado
dando impressão de que estava seco?
Essa dúvida sobre o ponto dos pratos
ocorria com frequência. Perguntava-se sempre quando deveria desligar a panela
de pressão do feijão. Se ela desligasse cedo, estaria cru e gastaria gás
colocando a panela na pressão de novo. Caso demorasse, a panela poderia
explodir, não é? E se servisse a carne crua ao noivo? E se passasse demais, caso
esperasse mais um pouco, e deixasse a carne igual à borracha? Estaria frita a
batata? Ficava sempre em dúvida se deveria continuar mexendo o brigadeiro com a
colher de pau. Chegou ao ponto de a única iguaria que sabia com
certeza que estava pronto ser o macarrão instantâneo, porque contava no celular os
exatos três minutos prescritos da embalagem. Para ela, tudo na culinária lhe era um
limiar sutil e perigoso onde tudo era cedo demais ou tarde demais.
Ao contemplar aquele garfo semimolhado
e semisseco, Letícia encasquetou sobre como
a receita havia dito que o bolo estaria bom depois 30 minutos de assado.
Não lhe parecia nem um pouco certo aquilo. Não havia como saber. Indagou-se, roendo as unhas, se o forno da pessoa era mais quente que o forno daquela peça
velha que chamavam de fogão em sua casa.
Impaciente com sua indecisão sobre o
ponto de um simples bolo, respirou e apreensivamente apertou o seu anel de
noivado. Estaria ela pronta para aquele anel de compromisso também? No coração
de Letícia, no entanto, aquela sensação passada pelo anel de ouro se
assemelhava com o enigma garfo em sua mão esquerda. Se mal sabia se um bolo
estava no ponto, como estaria pronta para casar?
Pela prescrição de sua família,
assim como a receita do bolo, aquele noivado estava muito demorado. Ao mesmo
tempo, segundo os mesmos parentes, ela estaria “velha demais” para tentar
coisas com que sonhava como ser uma veterinária. Teria que fazer cursinho,
mudar de cidade, anos de faculdade, especializar-se. E o casório, como ficaria?
“Era para ter pensado nisso antes de aceitar o pedido de casamento” (empurrado indiretamente
pela família dos dois goela abaixo). “Mas namoram desde sempre” ou "já deu
tempo de se conhecer”. Eram frases recorrentes pouco antes de noivarem. Era
incrível como um ano ou dois ou três eram o suficiente para desabilitar ou habilitar
Letícia para uma etapa crucial de sua vida.
O bolo exalou mais forte ao ponto de
acordar Letícia de suas ponderações. Era a hora! Abriu o forno, espetou o forno
e o garfo saiu limpo. Nunca em sua vida teve tanta certeza da hora de algo sair
do calor daquele fogão velho. Com a luva, pôs a forma em cima da grade acima. Triunfante!
Vitoriosa! Gritou entusiasmadamente à sala que já traria o lanche e apareceu na porta com a forma na mão.
— Não deixe de desenformar o bolo,
querida. Vai ficar tão bonito na mesa para tirarmos uma foto para postar.
— a visita sugeriu, mostrando seu
celular.
Letícia concordou e virou, fechando a
cara no minuto que pôde. Detestava desenformar qualquer bolo ou pudim. Era
inútil e arriscado. Por este motivo, apenas cortava com a faca seus pedaços até
que o bolo acabasse. Evidentemente essa era a razão por que as formas da casa
estavam todas arranhadas pelas facas. E, assim, parou em frente à forma
quente, hesitante de sua capacidade da
proeza de virá-la rapidamente sem despedaçar e esfarelar sua conquista.
Não deu outra. O bolo ficou com sua
marota terça parte grudada na forma. Teve vontade de chorar de raiva. Pela
primeira vez, tinha acertado e ainda assim conseguiu estragar as
coisas no final. Enfim, raspou a sua
vergonha com uma colher e pôs na lacuna de sua obra. Riu sozinha. Aquele bolo,
além de salgado, virou uma escultura moderna com vários recheios incomuns.
Seja o que Deus quiser! Levou o
bolo remendado à mesa com um semblante cabisbaixo. A mãe e a visita perceberam
o despeito de Letícia com o resultado de seu trabalho. No entanto, pularam da
cadeira mesmo ao perceber a massa com
pedaços de presunto, cenoura, pimentão, queijo e azeitona. A mãe de Letícia fez
um olhar confuso para a garota. Comentou ela que era algo que aprendera na
internet.
— Não precisava improvisar, Letícia.
Bastava usar o que eu já tinha separado. — a mãe falou entre os dentes, como se
rindo de nervoso.
—
Bolo de tudo. Vamos experimentar! — riu Ana Guilhermina, tirando uma
foto e postando com uma legenda engraçadinha nas redes sociais.
Após colocar a garrafa térmica cheia
de café na mesa, Letícia separou os pedaços para cada uma e esperou pelo veredito
de seu bolo Frankenstein. A sorridente visita parecia extasiada pela novidade e
calhou a falar mais sobre como gostava de tentar coisas novas da internet
também. Outro dia, fizera um “banquinho de caixote supercriativo”! Letícia riu
de canto de boca. Seu pai sempre tinha feito caixotes de banquinho e eram
chamados de “coisa de pobre” em vez de “móvel criativo”.
Depois de sua falação, a prima abocanhou
a primeira fatia do bolo e fechou os olhos, fazendo sons de satisfeita com o
sabor. Incentivou a prima a fazer o mesmo. Logo, Letícia observava as duas
críticas se deliciando com seu bolo doido cheio de orégano. Pegando pedaço após
pedaço.
— Carambolas, Lurdes, que coisa boa!
E você ainda falando que a menina não pode morar sozinha na capital porque não
cozinha um ovo direito. — Ana Guilhermina cortou outro pedaço do bolo, rindo
para a garota confusa. — Nunca mais acredito na tua mãe. Ainda estou tentando
entender esse desespero todo para você casar em vez de ir logo fazer a
faculdade que você tanto quer. Como se vinte e quatro anos fosse idade de se
casar senão você vai morrer solteira! Ora essa! Formando-se aos trinta anos,
você ainda teria que ser veterinária por quase quarenta anos, porque aqui neste
país ninguém se aposenta mais!
Letícia tentou situar-se com aquelas
frases inesperadas. Primeiramente, porque o bolo estava bom. Segundo, porque o elogio
do bolo levou a prima à conclusão de que a
jovem pudesse morar sozinha na capital, e não que simplesmente seus dotes e
prendas serviriam para a funcionalidade do casamento. Terceiro, porque a mulher
não acreditava que ela já estava “passada” para a vida universitária. Aquela
enxurrada de elogios eram de estranheza tamanha ao seu ouvido acostumado com a cobrança para ser uma boa governanta de seu futuro lar.
Duas primas crescidas juntas
poderiam ver a vida tão diferentemente assim? Passou a ouvir mais atentamente o
que Ana Guilhermina dizia. Talvez falasse tanto porque tinha mesmo muito o que
dizer.
Ao final das faladeira proveitosa, finalmente
Letícia provou seu empreendimento culinário. Estava realmente bom! Tinha gostinho
de decisão.
Observações sobre o conto Bolo de tudo
inspirado nas tortas salgadas que tanto fiz durante a pandemia para poder tomar café. A receita nunca permanecia a mesma, seja em seus recheios quanto na consistência da massa.

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