Conto: A Convidada Penetra
contos de escritores
brasileiros contemporâneos
As
coxinhas e bolinhas de queijo estavam ficando frias, mas eu continuei
beliscando os aperitivos mesmo assim. Chegou a um ponto em que somente havia
quibes no prato. Eu odeio quibes. Aliás, eu nunca havia ido a nenhuma festa em
que não sobrasse quibe nos pratos, então concluí naquela noite que aquele era, provavelmente, o salgadinho menos amado do Brasil.
Não
conseguia comer mais nada e não fazia nem uma hora de festa. Na tentativa de aplacar meu tédio, substituí a ausência de uma
conversa amigável por uma conversa indigesta com meu próprio estômago. E segui
nessa compensação de oralidade pelo começo de festa.
Já
estufada, reparei melhor na suntuosa decoração da mesa do bolo para distrair
minha mente e parar de comer por mero tédio. Passei a buscar detalhes que eu e
Celeste havíamos escolhido juntas na hora do almoço (às vezes, durante o
expediente). A paleta lilás e prata. O modelo dos guardanapos alugados.
Compramos os porta-joias de lembrancinhas no Saara. Inclusive, eu emprestara um
dos meus bibelôs para enfeitar a recepção. Estava tudo impecavelmente feito com
muito esmero.
Dei um sorrisinho
bobo de ternura porque minha amiga da firma de advocacia conseguiu fazer a festa de
quinze anos dos sonhos para sua filha depois de meses de preparação e muitos
gastos. Havia sido legal acompanhar, mesmo que superficialmente, o planejamento daquele evento. No
entanto, era evidente para mim que eu não queria fazer parte daquela etapa
exata de seu sonho. Eu só queria estar em casa assistindo a filme de comédia
romântica e eventualmente me perguntando a razão de eu estar
solteira.
Senti-me um
tanto culpada por não desfrutar daquele convite que custou tão caro à Celeste.
Por sinal, ela apenas me cumprimentara rapidamente e seguiu para dar atenção a
outros cem convidados. Portanto, era inevitável que o não pertencimento me
invadisse, já que estava completamente isolada em uma mesa de quadro cadeiras
vazias. Ali sentariam os importantes Vanessa, Plínio e Domenico. Pelo menos
eram os nomes escritos nos cartõezinhos. Deviam ser conhecidos isolados de
Celeste, os quais ela enfiou todos na mesma mesa. Eles ao menos tiveram a cara e a
coragem de não comparecer.
Era admirável a felicidade de Celeste, orgulhosa de sua menina crescidinha, que ela criara com tanta luta e sem ajuda
do pai. Apesar de mãe nova, ela conseguiu estudar Direito no turno da noite e tornou-se estagiária na firma de advocacia na mesma época em que fui efetivada. Face a causa tão nobre, senti mais culpa ainda por questionar a
necessidade de eu estar ali. Parecia-me egoísta reclamar em meu íntimo sobre
algumas horas de solidão de festa enquanto Celeste havia passado a vida
inteira batalhando solitária com aquela menina para chegar àquela noite de
sonhos.
Era uma comparação bem exagerada, eu
sei. Eram situações desproporcionadamente nada a ver uma com a outra. Celeste
devia ter razão ao dizer que eu me desgastava à toa com umas culpas sem sentido.
O engraçado era o fato de que, caso eu tivesse faltado, ficaria me remoendo a noite
toda por não ter vindo. A culpa me acompanharia não importava o que
fizesse. Eu estava ali (ao contrário da Vanessa, do Plínio e do
Domenico). Por que cargas d’água eu ainda assim me acusava por não estar tão
alegre quanto a dona do evento? Em relação aos meus companheiros faltosos, eu
era a alma daquela festa só por estar presente.
Enfim, a pista de dança foi aberta após
todos estarem bem servidos de salgadinhos e empadinhas. Uma fumaça de gelo seco
encheu o salão e luzinhas coloridas começaram a piscar. Invadiram a pista tios
quase bêbados, adolescentes pulando em volta da aniversariante e crianças
correndo para lá e para cá. E, eu permaneci sentada a escutar aquela música pop
tão desconhecida quanto aquelas pessoas se divertindo à vera.
A junção da música contemporânea e a
animação dos adolescentes cheios de espinhas me puseram em um estado indevido
de anciã. Não fazia nem quinze anos que eu era um deles e já estava
completamente destoada do cenário musical. Então, a sensação de
velhice e não pertencimento perdurou por conta da brincadeira das crianças, correndo umas atrás das outras. Na idade delas, eu não tinha o menor problema em
estar em uma festança enorme sem nenhum conhecido. Fazia melhores amigos em dez
minutos apenas ao encontrar outras pessoas dentro de minha faixa etária. Agora,
ali, adulta, com toda minha experiência de relações interpessoais de advogada,
não era capaz de puxar assunto nem com o garçom compadecido que insistia em
trazer mais quitutes e refrigerante.
As cadeiras vazias me fizeram imaginar como seria fazer amizade com Vanessa, Plínio e Domenico. Tal qual crianças
que se encontram pela primeira vez. Imagina só que divertido seria nós quatro,
totais desconhecidos, conversando sobre o muito em comum: nossa amargura
adulta! A Vanessa poderia falar dos mesmos filmes de comédia a que eu assisto; o
Plínio poderia ser seu marido gente fina; e o Domenico poderia ser um rapaz
italiano bonitão. Tive que escolher Domenico para ser o bonitão em minha
fantasia social porque Plínio tinha cara de nome de advogado de meia-idade
casado há quinze anos. E assim, por alguns minutos, passei a sonhar vagamente
com uma noite agradável fazendo amizades como uma criança faria.
Em certa fase de minha imaginação,
Domenico flertava comigo com seu sotaque italiano. Chamava-me de bella ragazza e
falava de Veneza. Ri sozinha com minha bobeira. Como seria a noite se ao menos
algum namorado ou marido me acompanhasse? Poderia até ser que nós dois
estivéssemos entediados juntos, mas não me importaria tanto de não conhecer
ninguém. Era bem desagradável representar o símbolo da solidão em uma festa em
que todos pareciam tão entrosados.
Tive
vontade de sair antes da cerimônia da meia-noite, em que a filha de Celeste
entregaria uma boneca a alguma daquelas menininhas e passaria a bailar com
o "Princípe". Sim! Já bastava ter ficado ali já por duas horas.
Marquei minha presença. Sem falar que a cerimônia me passaria um ritual tolo, até porque eu mesma dancei o mesmo em minha festa e os príncipes nunca chegaram de verdade em minha vida. Na verdade, àquela altura, pareceu-me uma boa ideia
ter a boneca de porcelana de volta. Ficaria perfeita na minha prateleira de
livros.
Sem eu perceber sua aproximação, Celeste
se assentou ao meu lado. Levei um susto com um leve sobressalto. Com semblante
sério, a dona da festa começou a confessar-me um tremendo alívio e satisfação
com a decisão repentina e revoltada da filha de não querer dançar a valsa com o
pai caindo de bêbedo.
— O salafrário não ajudou a pagar nada da
festa, assim como não esteve presente durante boa parte da vida. Ainda tem a
pachorra de embriagar-se com a cerveja que eu tô pagando sozinha. Deus me livre de minha filha acreditar que é
normal homem se comportar dessa maneira. — exclamou com rispidez.
Ela, então, passou a comentar do príncipe. Que ele era o príncipe mais bonito que já vira. Que a filha dela
arranjou um colega mais velho na escola. Apesar das palavras, torceu a barra de
seu elegante écharpe de seda, aflita.
Lembrei-me da preocupação que Celeste tinha de a menina engravidar nova, como
acontecera com ela mesma aos dezessete. Poderia estar matutando que a menina poderia
estar namorando o "Princípe" barbado e
ele acabar se aproveitando de sua ligeira menor idade.
Coloquei a mão em seu ombro.
— Celeste, não vai acontecer nada do
que eu sei que você está imaginando. Sua filha é muito esperta. — disse, com a
voz suave.
— Você deve ter razão. Tomara que seja
igual a você. — riu, certamente pelo fato de eu ter lido sua mente.
— Solteirona aos trinta anos?
— Deixa de ser besta, mulher.
Inteligente e bem resolvida, ora! Advogada e tudo. A solteira mais cobiçada da
festa! — Celeste exclamou, colocando a mão nas cadeiras.
— Tá
louca? Tão cobiçada que estou há duas horas nesta mesa sem ninguém falar
comigo. — alfinetei.
Ela se deu conta de minha moléstia. Abaixou
a cabeça sem graça por não poder me dar atenção. Sabia que eu era muito sociável
para curtir devaneios de boas no
canto (como me vi fazendo havia pouco).
— Beatriz, querida, desculpa por você
estar aqui sozinha. Meu plano não deu tão certo. Há dois primos meus doidos
para conhecer tua formosura. Perturbaram na sexta-feira para colocar você na mesma
mesa deles. Como eu não ia empurrar ninguém para você e nem escolher por você,
coloquei os dois na tua mesa e deixei o destino falar. Estão atrasados porque o
pneu do carro furou.
Meus olhos vibraram, confusos. Então,
Plínio não era casado com a Vanessa e Celeste me jogou para cima de dois
parentes que estavan competindo por mim sem eu saber. Daria o voto de minerva no final. Que
loucura! Mas e a Vanessa?
— Tá, mas e a Vanessa?
— Que Vanessa?
— Essa do cartãozinho.
— Ô mulher, Vanessa é aquela menina de
nove anos ali, minha sobrinha. Não para quieta. Vai receber a boneca na
cerimônia. A organizadora de eventos aconselhou contar com as crianças sentadas
para não faltar cadeira. Eu sabia que ela não ia sentar à mesa por um segundo,
então pus o nome dela aqui de propósito para vocês três ficarem conversando
sozinhos.
— Como você esperava que desse atenção
a dois homens ao mesmo tempo?
Celeste deu de ombros. Avistou dois
homens entrando na festa e acenou. Em seguida, apresentou-me por Doutora Beatriz
a Plínio e Domenico. Deu uma piscada para mim e se despediu.
Recolhi-me pateta em meio à situação
estranha. Ambos, igualmente altos e morenos. Ambos igualmente falantes. Nenhum
deles era italiano ou de meia-idade casado. Os dois em total guerra. Eu era
Helena de Tróia, a Beatriz de Bonsucesso.
Começaram enchendo-me de comentários
constrangedores. Tive que ouvir coisas como “por que tão sozinha e bela a essa
idade?” ou “você é advogada, não é? Poderia ter um caso contigo qualquer hora?”.
Ri nervosamente para aquilo tudo. Disputavam quem falava
primeiro a coisa mais “esperta”. Falavam mal um do outro indiretamente. Um
dizia, “melhor não pegar a cerveja porque o Plínio não consegue parar quando
começa a beber”. E outro replicava, “melhor não pegar salgadinho porque o
Domenico está precisando fazer dieta”. Um contava os podres do outro. “Plínio sempre
foi muito mulherengo, por isso, tá solteiro” ou “Domenico já terminou dois
noivados. Inconstante que se fala, né, primo?”.
Por um segundo de reviravolta, desejei estar como eu estava no começo da festa. Logo, gostava mais da fantasia que eu tinha criado
dos dois em que Plínio era o barrigudo e Domenico, o italiano galanteador.
Claramente ali os dois estavam mais interessados no calor da competição do que
na “minha formosura”.
Diante daquele escarcéu, recordei-me
porque permaneci solteira até os trinta anos. Saturada, pedi licença e me
levantei.
— Bela, vai ao banheiro? — perguntou Domenico, sorrindo.
— Não. Vou ali dançar com a Vanessinha
na pista. Ô menininha animada! Parece comigo pequenina.

Bastante divertido parabéns escritora.
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