Conto: O Choro da Noite
As malas pesadas jaziam abertas no chão de madeira velha. Apesar de Tia Alberta
reclamar da desorganização, já não fazia muito sentido fechá-las para
reabri-las toda vez que eu tinha que pegar um pertence. Era já a terceira noite
que dormia na casa da irmã de meu avô. Meus pais decidiram que me faria bem
ficar uma semana longe de qualquer tecnologia existente, inclusive um simples
chuveiro elétrico. Se não fossem os livros empoeirados da casa, certamente
morreria eu de tédio antes de hipotermia.
Mesmo com a ausência de entretenimento, Tia Alberta não parecia nunca
melancólica e entediada. Ocupava-se de atividades rotineiras que, à minha
vista, não tinha como satisfazer alma humana por muito tempo. Toda manhã
passava o café e assava broas frescas. Era broa com manteiga havia três dias.
Como não enjoava?! Pensava eu, desejoso dos salgados da cantina do colégio.
Eu não quero soar ter sido à época um rapazote mimado de doze anos vindo
da cidade, porém hás de concordar que um menino de qualquer idade nos anos
oitenta queria estar em qualquer lugar menos a comer broas com a tia avó no
meio do nada. Estava pedindo misericórdia aos Céus para um meteoro trouxesse
uma televisão àquele planeta. Aliás, nem televisão era necessário. Bastava-me
apenas qualquer evento extraordinário como um assalto ou a visita de alguém de
minha idade. Apareciam somente mais idosas a prosear com Tia Alberta. Sempre a
falar de mim pelas costas e na minha frente.
— E o menino, Alberta? Pensava que não tinhas filhos ou netos.
–– É o neto de meu irmão Pedro. Menino que nunca pegou sapo no brejo. Já
estava a preocupar seus pais. Só lhe interessam os quadrinhos e a televisão.
Por isso, passa aqui uma semana para aprender da vida simples.
Canseira mesmo era ser atacado como se não estivesse eu, vivo, ouvindo ali ao lado. Já estava acostumado com acusações semelhantes vinda de meus avós. No entanto, juntaram-se a minha tia-avó e as avós de não-sei-quem a falar de mim. Que arranjassem seus próprios netos para falar de seus hábitos! Tia Alberta passara a vida como a única professora primária do vilarejo. Aposentada, arrumou a função de pentelhar-me. Ora, se ao menos eu tivesse um dos meus gibis, pensava, lê-lo-ia toda vez que me cercavam as velhas. Apenas para provocá-las.
Entretanto, já era a terceira noite e a única coisa que aprendera
naquela casa sobre a “vida simples” fora odiar o chão de madeira velha. Esse
rangia toda vez que eu, no escuro, tinha que me aliviar no penico. Dava-me nos
nervos. Já estava até começando a tolerar os grilos e sapos, os quais
incessantemente cantavam depois do entardecer. Fingia que era o barulho de
ventilador. O assoalho era, todavia, um tormento. Não era suficiente o breu a
circundar-me! O piso tinha que ranger como se estivesse decidido a ajudar em
meu “alívio”. Naquela noite, recusei-me a amedrontar-me com rangido de madeira
como um menino cagão. Acendi uma lamparina velha, pois minha tia falara de
início que energia elétrica ali era cara demais para manter abajures acesos até
o sol raiar. Baboseira de mesquinharia de tia!
Tia Alberta dormia muito cedo. Mal eram oito e meia da noite e ela se
recolhia em seu quarto no segundo andar. Portanto, a cruel aposentada me
deixava totalmente sozinho e insone num quarto de hóspedes no primeiro piso.
Como alguém se deita às oito e meia e acorda antes do sol de propósito?
Loucura! Vontade de sofrer! Como se atrevia ela a burlar a lógica universal de
dormir quase de madrugada vendo filmes e perder a manhã toda dormindo até onze
horas? ? E, por conta de sua loucura, eu estava lá, garoto preso num quarto escuro, a assistir à janela com o luar. E,
ai de mim, se fosse à cozinha burlar o toque de recolher, como fiz na primeira
noite.
Minha imaginação de menino me trazia à memória os filmes de terror mais
sombrios que assisti sem minha mãe saber. Eram de mortos-vivos. Eram de
fantasmas. Lobisomens. Vampiros malvados que entravam pelas janelas a sugar o
sangue das donzelas à noite. Tudo que Hollywood trouxe de melhor e pior
para assustar jovens namorados em cinemas. Eram as cenas que me brotavam à
mente na escuridão do quarto , quebrada pela luz da lua cheia. Eu me considerava
um menino corajoso. Gabava-me dos filmes que via aos colegas de classe. No
entanto, arrependi-me amargamente, naquelas três noites, de ter alimentado
minha mente com aquelas cenas de suspenses e terror gratuito.
Olhar para a janela era horripilante. Fechá-la e ficar no quarto tomado de
trevas era deveras pior. Pois bem, ficava vigilante caso algo entrasse por
aquela janela para sugar meu sangue. Parecia uma ideia muito idiota porque nunca
temi estas criaturas folclóricas antes. Porém, se havia um local no mundo para
haver vampiro, lobisomem e morto-vivo, era naquele sítio afastado e ermo.
Nenhum padre ou sacerdote certamente conhecia aquele lugar perdido. Logo, seria
perfeito para os monstros se proliferarem sem pudor. E eu era carne nova.
Sangue novo. Estavam cansados das idosas fofoqueiras. Obviamente, se houvesse
qualquer criatura maligna, ela viria atrás de mim. Então, abria e fechava o
olho, verificando a janela a todo tempo.
A certo ponto, ao badalar do relógio de corda de Tia Alberta, estremeci. Pelas minhas contas, já deveriam ser quase onze horas, isto é, já
havia perdido três horas e meia tentando pegar no sono inutilmente. Estava
exausto de virar-me na cama ; cada vez que o relógio badalava, o meu coração pulava e despertava de qualquer sonolência. Senti vontade de atirar aquela gerigonça
morro abaixo na manhã seguinte. Não naquele momento porque não me atrevia a levantar-me da proteção divina do meu cobertor.
Contudo, essa última badalada se
aproximando da meia-noite era a segunda mais temida porque anunciava que
chegaria a grande maestria de sons que chamava a madrugada. E naquela bendita
hora, borrado de medo, a lamparina estratégica decidiu apagar sem gás, faltando
minutos para a hora favorita dos monstros. Pelo menos era o que as pessoas
diziam na escola.
Fiz a coisa mais inteligente que um menino de doze anos faria numa
situação de perigo iminente. Cobri-me de pés à cabeça com a manta, ignorando o
calor de janeiro. Parecia uma múmia suada. Os monstros não iriam achar-me no
quarto escuro. Depois, rezei o Pai-Nosso genuinamente pela primeira vez e
passei a recitar o único salmo que gravei na vida: “o Senhor é meu pastor e
nada me faltará”. Sabia que o certo era um outro salmo, mas não lembrava.
Assim, rezei para que aquele salmo funcionasse para espantar o mal também. Por
sinal, somente conhecia o primeiro verso.
Fiquei naquele mantra, ajeitando a manta para manter o pé a salvo do que
houvesse debaixo da cama velha. Tão velha era a cama que não me surpreenderia
se encontrasse uma passagem para um sarcófago de múmias egípcias debaixo dela.
Em minutos, passei a imaginar que algum fantasma que havia morado ali, tinha
ciúmes daquela cama velha. Sei que parecia ridículo. Fantasma com ciúme de
cama. Nada é ridículo quando está num quarto escuro de uma casa velha da época
de Dom Pedro II.
Sem mais nem menos, senti vontade de esvaziar a bexiga. Bendita hora! O
relógio ia badalar e eu ficaria desprotegido sem as cobertas. Não tive escolha:
assentei na cama e coloquei o pé no chão rangedor. Em seguida, tateei em busca
do penico torcendo para que nenhuma mão vinda de debaixo da cama puxasse a
minha. Enfim, encontrei o objeto e soltei a urina rapidamente para que
o relógio não badalasse no processo.
Durante o minuto mais longo
vivido por mim até então, esbugalhei os olhos para a janela aberta, única fonte
de luz do quarto. Por conseguinte, atentei para o menor movimento suspeito. E,
assim, nas últimas gotas de urina, acumulada de três me negando levantar,
pisquei mais tranquilo. Para que pisquei eu? Vi um vulto passar pela janela, de
fora, bem rapidamente. Chegou a hora! Pensei. Talvez morreria devorado por
alguma besta maléfica. Sendo eu tão jovem, nem teria tempo de terminar meus
quadrinhos pausados. Em questão de segundos, o relógio da sala tocou o som da
meia-noite. Já não havia dúvida em meu coração menino que aquele vulto era um ser
sobrenatural, pois esse ser coincidia passar segundos antes da badalada.
Sem titubear, vesti as calçolas de volta e acendi o abajur. Que se dane
a conta! Quebraria meu porquinho e daria o dinheiro para Tia Alberta para pagar
a mísera diferença. Para meu maior azar, a luz do abajur antigo e elegante
piscava por conta de sua fiação
desgastada. Melhor que nada.
Logo depois, decidi corajosamente fechar a janela e impedir aquele ser
de entrar em meu recinto. Fui andando devagarzinho, falando o salmo até a janela, enquanto rangiam as tábuas do assoalho. Malditas tábuas! Anunciariam minha
presença ao vulto e o ser me pegaria assim que chegasse à janela.
No meio do caminho, em repentino veio de fora um som sinistro que se
assemelhava a um assobio. “Fu-fuuuu”. Parei. Minha pele suava frio e fiquei
nauseado. Não havia sangue em meu cérebro mais para vampiro ou zumbi chupar.
Isso porque ele tinha ido todo para minhas pernas trêmulas. Eu fitei a janela à frente, paralisado no mesmo canto, mas sabia que tinha que prosseguir e
trancá-la de chave antes que o emissor do som entrasse.
Dei um passo. “Fu-fuuuu.” Meu Jesus Cristo. Perdoai que escondi o
chocolate na mala. Perdoai que bati no João Miguel no recreio. E também que
quebrei o vaso caro da minha mãe e escondi os cacos.
“Fu-fuuuu-fu-fu-fu.” Um vulto de novo.
Pronto! Estava se aproximando. Dava até para identificar de mais perto o som
lamentoso. Sem dúvidas, era um alma chorosa a vaguear pelo sitio.
Não havia razão para fechar a janela, já que a alma-lamentosa passaria pela
parede e choraria. Teria eu, simples menino, que correr até a sala e trazer
qualquer relíquia ou amuleto religioso para espantar o espírito.
Fu-fuuuu-fu-fu-fu…
De novo o choro. Corri com lágrimas nos olhos. As tábuas rangiam a cada
pisada. Chegando à sala de visitas, acendi a luz da sala e escaneei o ambiente
em busca da relíquia mais eficiente. A bíblia amarela da estante resplandeceu.
Lembrei-me das cenas dos padres lendo a bíblia nos filmes de casa
mal-assombrada.
Fu-fuuuu-fu-fu-fu!
Gelei. Era aquilo ou nada. Corri até a bíblia pesada e, em minha pressa,
derrubei um dos santinhos à volta. Ai, Pai, agora, a alma viria com certeza
atrás de mim com seu choro.
Ouvi um ranger descendo a escada. Fechei os olhos. Era o fim.
Uma mão gelada pousou em meu ombro. Não tivesse eu urinado antes, já
teria molhado as calças
— Menino. Que barulheira! Vá-te a dormir. Estás a desperdiçar energia
fazendo bagunça em meu oratório.
Tia Alberta, com sua cara enrugada, nunca fora tão bem-vinda. Orgulhoso,
neguei-me a explicar o motivo de estar ali de fronte ao livro sagrado.
Expliquei que lia os versos de nosso Senhor. Incrédula, mandou-me voltar à
cama. Que lesse os evangelhos com ela em horário de gente estar acordada.
Percebeu que eu suava. Devia ser a manta. Portanto, teve a ideia genial de
trocar minha manta protetora por um reles lençol fino de algodão. Que proteção
aquilo proporcionaria? E o fez enquanto o canto sinistro continuava.
Fu-fuuuu-fu-fu-fu. Consequentemente, passei a crer que somente a minha alma
pecadora era atormentada pelo choro fantasma.
Lá estava eu, sozinho novamente, na penumbra do quarto. Sem luz de poste.
Sem abajur. Apenas a lua e o choro do fantasma triste fazendo companhia. Que
fiz de errado para ser o escolhido da alma penada para escutar seu lamento? Nem
sequer podia ler a bíblia alto para que o espírito se assustasse ou se
acalmasse. Sei lá.
Fu-fuuuu-fu-fu-fu.
A cada gemido meu estômago revirava.
Fu-fuuuu-fu-fu-fu
Por fim, levantei valentemente e fui até a janela para enfrentar o vulto.
Vi a cerca e as árvores, nada mais. Decepcionei-me. A alma se escondera justo
quando lhe iria proclamar o salmo. No entanto, estava determinado a arrancar o
vulto do quintal. Passei a recitar um pouco mais alto.
_ O Senhor é meu pastor e nada…
Fu-fuuuu-fu-fu-fu
Estava ela com medo? Continuei.
_ e nada me faltará.
Silêncio. Venci! Virei-me para voltar à cama.
Fu-fuuuu-fu-fu-fu
Arrepiei-me até nas barbas que não tinha. Já era. O fantasma não se
importava com o salmo escolhido. Tinha que ser o certo. O outro. Qual? Virei-me
novamente para a janela e benzi-me. Fiz uma cruz com os dedos. Depois, enchi
meu peito e gritei sem dó:
— Vai-te chorar em outro canto que aqui não é bem-vindo teu lamento de
alma penada.
A árvore se mexeu, e algo saiu dali voando tão rápido para a cerca que
não pude identificar. Mesmo assim, não havia nada semelhante a pássaro ou
coruja na cerca. Só cerca. Perguntei-me se o choro era um simples canto de ave
noturna. Mesmo que fosse, seria uma ave do além, porque eu nunca ouvi algo tão
tenebroso na vida. Já tinha escutado corujas, mas nada assim.
Continuei observando a cerca. Nada ali.
Fu-fuuuu-fu-fu-fu.
Eu juro que a cerca chorou. Teria a alma se apossado da cerca? Era um
pensamento bem besta, mas o que sabia de fantasma de filmes era que os objetos
flutuavam, e não que cantavam se lamentando. Cansado com aquela lenga-lenga,
investigaria e terminaria com aquela agonia de uma vez por todas.
Por fim, pulei a janela e aterrissei nas margaridas de Tia Alberta. Caso
não morresse ali, apanharia no outro dia. O que tinha eu a perder? Andei com
cautela até a cerca rústica de sítio. Era uma cerca que ninguém quis gastar
tinta para pintar, mas que servira leal a seu propósito por anos. Naquela
noite, a cerca decidira chorar apenas para castigo meu.
Cheguei a meio metro das estacas, enfim, e observei com o coração batendo
na goela.
Fu-fuuuu-fu-fu-fu
Mais alto que nunca. Sim, estava na minha frente. Pela terceira vez, tive
certeza de que era o fim. Mesmo que cerca fantasma não fizesse nada, eu, ali, desmaiaria de terror. No entanto, corri de volta para a janela, gritando e
chorando. Chamei o nome de Tia Alberta. Nunca fora o seu nome mais doce em
minha boca. Nunca invocara com tanta vontade a idosa.
Tia Alberta. Socorro! Tia Alberta! Vem cá!
Pulei para o quarto e escondi-me nos lençóis. Trêmula e pálida, a velha
em minutos apareceu no quarto com uma
lanterna.
_ Tadeu, por tudo o que mais é sagrado, o que houve? Quase me infartas
com teus gritos.
Fui abraçar chorando a minha heroína de rugas, ignorando sua ira.
Gaguejava apontando para a janela.
Conclusão, a mulher entendeu que estava apossado de pavor de menino.
-A
cerca está amaldiçoada, tia. Deixe-me dormir contigo.
- Que
conversa é essa, garoto?
Fu-fuuuu-fu-fu-fu
Abracei Tia Alberta mais apertado, sem
orgulho, escondi a face em seus ombros frágeis. Eu era maior que ela. O que
tornava tragicômica a cena. Sem compaixão, a idosa riu. Entendeu a fonte de meu
terror. Disse que iríamos checar a tal cerca amaldiçoada. Implorei-lhe que não.
Ela insistiu, pegando-me pelo braço e arrastando-me até a porta dos fundos da
casa.
No
quintal, damos a volta pelo jardim minha tia se rindo com a lanterna. A cada
choro da cerca, eu chorava fininho.
Fu-fuuuu-fu-fu-fu. Fu-fuuuu-fu-fu-fu. Fu-fuuuu-fu-fu-fu.
— Aponta-me a cerca amaldiçoada!
Apontei trêmulo para a cerca de frente da janela do quarto em que vivi
meu terror. Tia iluminou com a lanterna e eu fechei os olhos.
Fu-fu
Finalmente, curioso, abri os olhos por uma fresta e contemplei duas
frestas de olhos brilhantes sob a luz da lanterna. Abri mais ainda o olho e os
olhinhos à minha frente abriram. Esbugalhados, os olhos me fitavam. Que grotesca
criatura era aquela? Abriu uma bocarra, encheu seu papo bizarro e prosseguiu a
cantar.
Fu-fuuuu-fu-fu-fu
— A cerca amaldiçoada, Tadeu, não passa de uma ave chamada Urutau. Feia, sim, mas inofensiva. Tão inofensiva que se esconde do homem, fingindo ser pedaço
de pau. Vamos, ficarei em teu quarto até pegares no sono.
Meu coração lentamente voltou ao seu bater normal. Envergonhado, dirigi-me com a idosa até a cama. Enfim, adormeci com Tia Alberta segurando
minha mão, compadecida de minha
inocência.
Às dez horas, acordei tonto e crente que tinha tido um pesadelo. O sol
entrava pela cortina. Suava desta vez de calor. Fui abrir, enfim, a cortina
para entrar vento no quarto abafado. Lá estava o Urutau na estaca. Permaneceu
ali para zombar de mim. Parecia uma coruja cinzenta feiosa; papuda e
bocuda saída do laboratório do Dr Frankenstein. Posava com os olhos entrefechados.
Realmente era difícil distingui-la da madeira. Olhei de volta e o bicho
malandro evaporou baixo ao sol.
Fui comer broas e encontrei minha tia papeando com um padre. Padre
que eu julguei nem pisar naquelas terras para desconjurar os vampiros e
lobisomens.
— O
que ensinam em escola de rico que os meninos não sabem o que é a mãe-da-lua? Ou melhor, um
simples Urutau, que habita de norte a sul da América Latina. — disse tia.
— Ora, cara Alberta, não seja dura com o menino. Se até hoje há gente
daqui a matar a pobre ave por conta de superstição e crendice ignorante. — o
padre respondeu, acenando para mim.
Assentei-me à mesa e vi um belo bolo de cenoura e um pacote de bolachas.
Sorri para Tia Alberta, grato. Ela sorriu de volta, piscando para o padre.
— Então, meu jovem, ainda queres ler os evangelhos ou foi só por
desespero? — tia perguntou.
Fu-fuuuu-fu-fu-fu
O padre assobiou e caiu na gargalhada, dando-me tapinhas na cabeça. Logo
enrubesci o rosto. Então, acenei com a cabeça que sim, não admitindo minhas
intenções de exorcizar almas chorosas com uma leitura descoordenada da bíblia.
Faz quarenta anos desde a única vez que vi um Urutau, em minha tenra idade. Logicamente, voltei à cidade depois de quatro dias. Confesso que foi menos chato depois que o padre e minha tia passaram a me mostrar as outras coisas da vida de vilarejo além de comer broas. Levaram-me a pescar no riacho e, por essa razão, passei a amar a pesca.
A
velha casa e sua cerca fantasma não existem mais. Além disso, o vilarejo já é
bem mais povoado e iluminado. Creio que não há mais Urutaus por aqueles cantos
de tanto que os perseguiram os supersticiosos. Pobre e injustiçado Urutau! Feio
que só, mas nunca um monstro. Já era claro, para mim, que o único monstro
daquele local era o ser humano ignorante.

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