Conto: A vez que não senti
Contos de escritoras brasileiras contemporâneas
Um carro de som passou pela rua como sempre fazia todas as manhãs.
Antes de anunciar a venda de botijão de gás, tocou a mesma música de Beethoven, Für Elise. Normalmente, ao acordar com as notas da
composição, angústia me enchia por saber que dormi em demasia. Contudo, não foi
o que ocorreu naquela manhã. A ansiedade e o desespero não me abateram e, em vez de levantar em pânico, pus-me a olhar o teto, eu imóvel e desagoniado. Nem sequer incômodo com o carro importuno senti naquela hora, apenas permaneci deitado por dez minutos.
O primeiro pensamento a permear minha mente se deslocou por completo do pensamento costumeiro sobre trabalho. Pensei: duvido muito que o
vendedor de gás saiba que o jingle de sua propaganda foi composto por
Beethoven e muito menos que a inspiração era uma mulher chamada Elise. Verdade seja dita, eu tampouco sabia quem era a tal da Elise e decidi resguardar-me a ignorância
deste detalhe, como se fosse uma balança perfeita para equilibrar o descompasso
da informação. O vendedor não precisava saber quem compôs o jingle dele, e eu
não precisava saber se Elise era a mulher, a filha ou a amante do compositor.
Simples.
Olhei para o relógio do celular. Duas horas atrasado. Eram duas horas
redondinhas de atraso para o dever do escritório. Não senti a menor pressa. Então, levantei e
decidi que o dia estava perdido, assim como as seis chamadas perdidas do
telefone. Pela primeira vez, não me comoveram muito as mensagens da secretária. Ela, sim, deveria estar em total
estresse.
“Chegaram os clientes há vinte minutos. Cadê o senhor?”; “senhor, estão
ficando impacientes”; “o primeiro foi embora”; “senhor, por que não está
atendendo?”; “tive que dizer que o senhor passava mal e dispensar o restante”.
Percebi que não havia em mim compaixão pelo malabarismo da senhorita Fabíola
para justificar minha ausência. De certo, eu não merecia seu jogo de cintura e
lealdade como funcionária. Não me senti mal por não me sentir mal com isso e apenas fui lavar o rosto.
Vi-me velho no espelho. Entretanto, isso não mexeu comigo como em todas as manhãs. Estranhei que as rugas e o semblante acabado não me pesaram o coração, porém dei de ombros. Em seguida, eu me tirei as remelas de dez horas de sono
ininterruptos. Para completar, não quis barbear-me, pois, ao terminar o ato de afeito,
a barba cresceria de novo. Deixei lá os pelos faciais que minha profissão exigia que eu retirasse a miúde e apenas penteei meu calvo cabelo
para trás. Só por costume mesmo.
Finalmente, estava à mesa com minha caneca cheia de café. O
aroma, porém, não me inebriou. Raciocinei. Bebi. Não era bom ao
paladar, nem me deixou alerta. Não fiz questão de sentir o prazer que o café me proporcionava, então joguei-o fora. Não tinha muito sentido beber café sem função.
Assim, decidi beber água e comer uma
banana com aveia e mel. Era tudo sem gosto e
nada me apeteceu. Pelo menos, não ficaria gordo depois e aproveitaria uma vitamina aqui e acolá.
Já com o prato vazio, olhei para o retrato de meu falecido filho na geladeira. Garotão de
vinte e dois anos posando com seus Esquis em Bariloche. Fim da faculdade de Engenharia.
Forte e com uma vida pela frente. O menino gostou tanto de esquiar que voltou
para lá no outro ano. Infelizmente, não retornou mais para o Brasil porque, por
ironia do destino, perdera a vida em um acidente de carro em Buenos Aires em vez de, romanticamente, descendo as montanhas por quem se apaixonara. Talvez por isso, a foto com o esqui nunca me fora mórbida, ao contrário do que dizia Maria Isabel. Eu gostava de contemplar o menino sorrindo feliz.
Apesar de aquela foto sempre me trazer uma pitada de sofrimento, não me veio visitar tristeza naquele segundo. Não daquela vez. Naquela vez, eu não senti. Daí, minha mente travou. Como assim? Cadê a dor em meu peito? Andei devagar até a porta cheia
de imãs de pizzarias e drogarias. Peguei com cuidado a foto que me trazia luto
todas as manhãs. Contudo, não senti nem mesmo minha pálpebra pesar naquele
momento. Belisquei-me. Nenhuma dor. Havia algo errado
comigo. Não me perturbou se havia algo errado, mas decidi investigar aquele
estranho estado errante de dormência de alma e de corpo por mais um tempo.
Assim, busquei algo que pudesse mexer com meu estado de espírito. Liguei
o computador e abri novamente o e-mail da mulher que eu chamava “carinhosamente”
de bruxa. Reli todos os xingamentos e acusações de minha ex-mulher, os quais não mais me fizeram esboçar um pingo de ódio naquele momento. Deveria estar surpreso com o fato de não ter vontade de explodir: não
fiquei surpreso. Ali descartei minha capacidade de sentir tristeza, dor, ansiedade, ódio
ou surpresa.
Parei e pensei em algo que pudesse me expor a qualquer outra emoção.
Fechei a mensagem raivosa da bruxa e coloquei na página de
notícias, de modo que eu lesse algo que consideraria absurdo e me revoltasse a ponto de criar um
texto indignado nos comentários. Não o fiz. Concluí que a revolta e a indignação também me eram fugidas.
Depois, assisti a meu vídeo de piada favorito e, como
suspeitei, não me senti entretido. Nem ao menos sorri de canto de boca. Apenas cocei a
cabeça e vi que, naquela tela, não havia nada que me fizesse sentar o restante
da manhã. Tivesse eu tédio, bocejaria. Não estava entediado.
Com a coluna ereta e semblante sério, confirmei um fenômeno bizarro: acordara sem emoções. Em mim, não encontrei nenhum estado triste, enojado, ansioso, desejoso, raivoso, surpreso, alegre ou estressado. Parecia loucura, mas nem medo daquela insanidade senti. De repente,
todos os sentimentos e turbilhões indesejados se foram no minuto em que fui
despertado pelo som do carro do gás ao longe naquela manhã. Não havia nada que
me movesse dali, nem sequer a vontade. Talvez minha lógica pura ou hábitos me fizessem levantar,
nada além disso.
Eu não tinha o que sentir sobre meu estado dormente. Então, apenas ponderei que poderia ser bom após três anos de sofrimento.
Não havia muito o que fazer em casa e, como disse antes, o tédio era um sentimento do passado. Permanecer parado, no entanto, era muito contraproducente e
inútil. Logo, decidi em meu raciocínio que melhor era fazer alguma coisa, mesmo
que nenhuma subjetividade emotiva me movesse para tal. Assim, lembrei que não tinha ligado para
a senhorita Fabíola. Não que eu me importasse, mas pensei que era melhor ligar, porque
era uma ação esperada e benéfica ao mundo (talvez só a mim, mas não posso dizer que me senti incomodado com isso).
Então, telefonei de volta para a mulher, que a essa altura deveria estar se
arrancando os cabelos.
— Alô! Senhor Laurindo! Graças a Deus! O que houve? Já ia ligar para sua
ex-mulher, Maria Isabela, para saber de ti.
— Acordei faz cinquenta minutos. Jamais ligue para Maria Isabela.
— Está se sentindo bem?
— Não.
— Sabia! O senhor é muito responsável. Nunca faria o que fez sem ligar.
O que sente?
— Nada.
— Mas está se sentindo mal? — perguntou afinando a voz.
— Não. — respondi secamente.
Senhorita Fabíola silenciou porque talvez estivesse matutando o paradoxo
de minhas respostas. Ouvi um suspiro enervado, como se tivesse algo entalado na garganta da mulher.
— O que faço? A reunião do projeto tomaria o dia todo e sua ausência
colocou em xeque a programação da semana inteira.
— Vai para casa, ué! — disse eu sem pestanejar..
— Como assim “vai para casa”? Quem
vai atender o telefone? — preocupou-se a secretária como se o telefone não ser
atendido ofendesse toda a categoria de sua profissão e o funcionamento da
sociedade e do universo.
— Ninguém. Só vai para casa. Segunda você me liga para saber se precisa
ir trabalhar. Se eu não atender depois de três chamadas, você volta a dormir. — respondi,
calculando que pudesse acontecer o mesmo que ocorreu naquela manhã.
— O senhor vai me demitir? É porque não consegui o voo sem escala para o
senhor? Sei que ficou bem chateado. — perguntou com a voz chorosa.
— Não, não vou demitir a senhorita. Pensando bem, não há mal em ficar
cinco horas em Guarulhos. Posso ler. É... você me faz um relatório na segunda?
— Sim, claro. É sobre o que o relatório? — respondeu, ainda tentando conter os soluços..
— Não tem aquela musiquinha de telefone “ta ran nam ram ram ram nã...
taran nam nam”?
— Conheço,
mas não sei o nome.— Fabíola respondeu, rindo de nervosa.
— Für
Elise, por Beethoven. Para Elise. Eu quero que você escreva um
relatório sobre a música, sobre quem a fez e quem era essa Elise para quem
Beethoven dedicou a música. Depois você envia o relatório para o e-mail da
empresa de gás Dubom com cópia para mim.
— Senhor
Laurindo, desculpa lhe perguntar. O senhor é muito inteligente e tal. Mas por que
isso é importante? O senhor está com um monte de projeto para entregar à prefeitura
e à fábrica de borracha. Não param de ligar. — disse a moça já perturbada com meu pedido como se eu
insultasse a profissão de engenheiro e o funcionamento da sociedade e do universo. .
Eu parei para
arrazoar nas melhores palavras possíveis para fazer Senhorita Fabíola entender
porque aquilo era relevante, visto que ela nunca veria sentido mesmo.
Percebendo que era inútil escolher as palavras, fui bem cru e sincero
em minha explicação.
— Senhorita
Fabíola, há quanto tempo a prefeitura e a fábrica de borracha pedem para eu
refazer meus projetos da ponte central e do pátio de descarga?
— Há cinco e
oito meses, respectivamente, senhor.— respondeu eficientemente.
Cocei a
garganta para concluir meu raciocínio com mais ênfase.
— Exato, há
relativamente pouco tempo em relação a algo muito mais sério que tem acontecido. Que você entenda ou não, isso é vital. Há três anos, desde que me mudei para esta
cidadezinha pacata, depois de meu divórcio... — comecei com uma voz monótona. E
parei, sem ar.
— Sim,
continue.
De repente,
meu coração acelerou. E meu sangue efervesceu. E minha pupila dilatou. Num
segundo para outro, tudo que não senti antes veio cobrar os juros. Raiva, ansiedade, tristeza, incômodo. Até a
dor do beliscão apareceu. A energia do gole de café. Então, aumentei minha voz.
— Desde que
busquei paz me mudando para cá, depois de meu divórcio e do falecimento do meu
filho, um carro vendendo botijão me acorda com Für Elise nas alturas
todo santo domingo e dia santo! E eles têm o desaforo de nem saber que música é
essa! Eu fiz três anos de Conservatório de Música na adolescência e não uso
essa música para incomodar a paz matutina de ninguém. Antes eu tivesse ficado no meu apartamento
em São Paulo!!! Não chega barulho de carro de som nenhum! Nem ouço buzina.
Então, você vai escrever, sim, esse relatório e vai fazer melhor: vai imprimir e
dar a cópia para cada funcionário dessa pequena empresa de gás, desde o porteiro até o dono. E, sabe, é um absurdo que...
— Senhor,
você está mal de novo por causa de seu filho. Por que o cara do carro do som e o
vendedor de gás tem que saber quem compôs a música e quem é Elise? O que isso vai adiantar em
qualquer problema seu? O senhor quer que eu ligue para o psicólogo que você cancelou mês passado inteiro para terminar o projeto? — a
secretária interrompeu, claramente atormentada pelas minhas palavras de
indignação sem sentido contra o carro do gás.
Respirei. Ela
tinha razão. Por alguns minutos, acreditei que não sentia nada.
Talvez de tanto não querer sentir nada. Sentia e sentia até demais. Sentia tanto que as emoções não se destacavam mais para eu poder distingui-las.
Tristeza
porque meu filhão se foi antes de se tornar meu jovem sócio e trazer vida com seu sorrido àquele escritório frio em São Paulo. Indiferença por tudo
que envolvia a engenharia, a qual um dia eu e ele entusiasticamente planejávamos exercer lado a
lado. Raiva porque Maria Isabela me culpava por deixá-lo esquiar naquele ano, como se eu pudesse negar aquela alegria a ele por conta de seus medos de mãe. E
culpa porque, no fundo, eu acreditava em suas palavras passionais. Inquietação
porque aquilo tudo que eu sentia não me deixava. Incômodo porque o lugar em que eu escolhi
viver para esquecer a pior fase da minha vida não cumpriu sua missão.
E, por fim, havia a vontade de
explodir o carro de som e votar no primeiro vereador que impedisse o uso
comercial daquele jingle. Eu, como amante de música clássica, passei a odiar aquela obra-prima de Beethoven por conta daquele vendedor de gás. Parecia uma vingança justa.
E, assim, de uma maneira bem bizarra, aquele
furacão culminou naquela manhã dormente. Meus peito cansado de apertar. Meu corpo talvez cansado de sentir.
— Tudo bem.
Você tem razão. Mas, peço-te apenas uma coisa além disso.
— Claro,
senhor. Fico feliz que esqueceu esta ideia louca. O que é?
— Eu não vou
trabalhar segunda, vou à seresta do João. O velho me chama há seis meses. Mas envia para meu e-mail ao menos um
relatório detalhado a respeito da Elise. Talvez isso é o que me falta.
— Porque não
pesquisa na internet? Por que saber quem é Elise é o que te falta?
— Não. Não.
Eu só quero fazer de conta que vivo num mundo em que Beethoven é mais
importante que o projeto infindável da ponte central.
A secretária
não questionou, riu um pouco da missão em que eu lhe metera e me desejou um
bom fim de semana. Ao desligar o telefone, dei uma gargalhada atrasada por meio minuto e decidi assistir de novo ao
vídeo engraçado. Depois que eu comentasse indignado o site de notícias
políticas, é lógico. Aquilo era um absurdo!
Um conto com temática cotidiana, beirando ao fantástico, sobre a vez em que um homem comum perdeu, por um breve momento, todas as suas emoções e sentimentos bons e ruins. O conto nasceu de duas inspirações: a necessidade humana de fugir de seus piores sentimentos e do carro de som vendendo botijão, presente no subúrbio de grandes cidades e em tantas cidades do interior brasileiro.
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Texto maravilhoso. Me diverti e ri com o personagem.
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